quarta-feira, 15 de abril de 2009
Cinema brasileiro
Não tive disposição para assistir ao resultado divulgado ontem à noite do Grande Prêmio Brasil, uma espécie de Oscar do cinema brasileiro. Li agora no Subtantivo Plural, de Tácito. Achei que Linha de Passe, de Walter Salles merecia pelo menos uma das oito indicações. Concordo com Tácito de que Vicky Cristina Barcelona estava aquém de uma premiação de melhor filme estrangeiro, apesar de ter sido o melhor dos quatro filmes de Woody Allen que assisti. Infelizmente não vi Estômago, do diretor Marcos Jorge. Foi ele o grande vencedor do dia, com melhor filme, direção, roteiro original, ator coadjuvante e escolha popular. Fiquei mais curioso. Mas achei excelente o filme Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles e achei muito pouco os prêmios menores de maquiagem, direção de arte, fotografia e efeitos visuais.
terça-feira, 14 de abril de 2009
De jornais populares, impressos e internet
O programa televisivo Observatório da Imprensa trava agora (23h15) discussão muito bacana acerca da proliferação dos jornais populares no Brasil. Os argumentos usados por editores e diretores de redação dos principais expoentes deste estilo de jornal me parecem bastante convincentes e provocam reflexões a respeito de como o jornalismo produzido pelos grandes conglomerados midiáticos tem sido jogado no mercado.
Embora não tenham chegado a este ponto ainda, é fácil vislumbrar as razões para este crescimento: preços baixos das edições, notícias populares como futebol, polícia e celebridades predominantes e linguagem mais acessível. A priori o pensamento é o estigma do sensacionalismo, sempre embutido neste tipo do fazer jornalismo. E se pergunta: onde estão as notícias de economia, e política, e as matérias mais trabalhadas?
Diferentemente do pensamento comum, estes jornais já se desvencilharam do sensacionalismo e produzem hoje o jornalismo cidadão. Abordam assuntos de interesse geral, principalmente das classes C e D. Alie-se a isso a formação de novos leitores. E como frisou o diretor do sexagenário jornal O Dia, quando se denuncia o problema de buracos nas ruas e isto se torna tema de audiência pública na Câmara isso não é notícia política?
Infelizmente a notícia política vinculada ao dever do jornalismo em prestar serviço ao cidadão vista hoje nos grandes jornais é especular sobre quem a borboleta Micarla pretende votar para o senado. Ou quem serão os candidatos a governador para 2010. As matérias de economia se resumem a sete ou oito fontes.
Claro, os jornais populares parecem o foco resistente na luta contra a migração massiva de leitores à internet. E esse ponto para mim é fundamental na discussão. Defendo piamente a permanência da fidelidade ao jornal impresso. A internet tem seu público. O jornal popular, idem. E eles se complementam. As notícias exibidas pela internet e jornais populares carecem de aprofundamento, em maioria. E isso leva ao nivelamento baixo do fazer jornalístico.
Entrevistei hoje uma figura conhecida na cidade entre intelectuais e ele me disse que os jovens até buscam notícias na internet, mas depois de cinco minutos procuram pornografia; que os livros encontrados na internet cansam mais o que já é cansativo para muitos. Ou seja: essa migração é perigosa, nociva. A internet deve funcionar como meio democrático de contestação e entretenimento. O jornal popular, como serviço ao cidadão, principalmente das classes mais baixas. E o jornalismo impresso carece de moralização.
Sem querer defender meu peixe, mas o Diário de Natal tem passado por uma reformulação visível de conteúdo nas últimas semanas. As manchetes são claramente de apelo popular. Isso porque o jornal aboliu matérias pagas de governo ou coberturas daninhas, digamos, de políticagens de resultados futuros ou inexistentes. O jornal optou por histórias populares, problemas e soluções de interesse geral. Isso sem cair no popularesco ou mesmo no popular, posto que as coberturas culturais, econômicas e o preço do jornal permanecem.
Torço mesmo para o bem do jornalismo impresso e pelo diálogo intelegente, moralizador e democrático entre as mídias. E acho ainda que já perdi o resto do programa.
Embora não tenham chegado a este ponto ainda, é fácil vislumbrar as razões para este crescimento: preços baixos das edições, notícias populares como futebol, polícia e celebridades predominantes e linguagem mais acessível. A priori o pensamento é o estigma do sensacionalismo, sempre embutido neste tipo do fazer jornalismo. E se pergunta: onde estão as notícias de economia, e política, e as matérias mais trabalhadas?
Diferentemente do pensamento comum, estes jornais já se desvencilharam do sensacionalismo e produzem hoje o jornalismo cidadão. Abordam assuntos de interesse geral, principalmente das classes C e D. Alie-se a isso a formação de novos leitores. E como frisou o diretor do sexagenário jornal O Dia, quando se denuncia o problema de buracos nas ruas e isto se torna tema de audiência pública na Câmara isso não é notícia política?
Infelizmente a notícia política vinculada ao dever do jornalismo em prestar serviço ao cidadão vista hoje nos grandes jornais é especular sobre quem a borboleta Micarla pretende votar para o senado. Ou quem serão os candidatos a governador para 2010. As matérias de economia se resumem a sete ou oito fontes.
Claro, os jornais populares parecem o foco resistente na luta contra a migração massiva de leitores à internet. E esse ponto para mim é fundamental na discussão. Defendo piamente a permanência da fidelidade ao jornal impresso. A internet tem seu público. O jornal popular, idem. E eles se complementam. As notícias exibidas pela internet e jornais populares carecem de aprofundamento, em maioria. E isso leva ao nivelamento baixo do fazer jornalístico.
Entrevistei hoje uma figura conhecida na cidade entre intelectuais e ele me disse que os jovens até buscam notícias na internet, mas depois de cinco minutos procuram pornografia; que os livros encontrados na internet cansam mais o que já é cansativo para muitos. Ou seja: essa migração é perigosa, nociva. A internet deve funcionar como meio democrático de contestação e entretenimento. O jornal popular, como serviço ao cidadão, principalmente das classes mais baixas. E o jornalismo impresso carece de moralização.
Sem querer defender meu peixe, mas o Diário de Natal tem passado por uma reformulação visível de conteúdo nas últimas semanas. As manchetes são claramente de apelo popular. Isso porque o jornal aboliu matérias pagas de governo ou coberturas daninhas, digamos, de políticagens de resultados futuros ou inexistentes. O jornal optou por histórias populares, problemas e soluções de interesse geral. Isso sem cair no popularesco ou mesmo no popular, posto que as coberturas culturais, econômicas e o preço do jornal permanecem.
Torço mesmo para o bem do jornalismo impresso e pelo diálogo intelegente, moralizador e democrático entre as mídias. E acho ainda que já perdi o resto do programa.
Carne de segunda
Sem tempo nem dinheiro sequer para comprar poemas de Helmut escritos em guardanapos, deixo o leitor com este texto produzido para figurar na então coluna que havia herdado no Poti, quando substituiria o grande Osair. Extinto o espaço, estas mal escritas ficaram boiando aqui no computador. Volto mais tarde com novidades.
Tem texto pronto? Escuto esta pergunta há dez anos. A resposta afirmativa ensejava um escrito banal publicado neste mesmo espaço. O diferencial confortava minha timidez: apenas meu e-mail. Agora, olho para o “amigo leitor”. Olhar cansado; cabelo mal definido mesmo sob photoshop. Pior: nome destacado na abertura para substituir dos maiores da ralada profissão. Não bastasse, a página requer talento literário. Mesmo a crônica confiada às migalhas de tudo; um resto de banquete literário, como escreveu Rubem Braga. É dele a metáfora perfeita do cronista, em texto intitulado O padeiro.
O padeiro deixava o pão diariamente na residência de Rubem Braga. E gritava ao bater à porta: “Não é ninguém, é o padeiro!”. Aprendera de ouvido, quando alguém de dentro da casa perguntava quem era e a empregada ou outro qualquer respondia: “Ninguém, é o padeiro”. O cronista aproveitou o fato e metaforizou a figura do pão quentinho com o jornal, deixados cedinho na porta de cada lar – produtos feitos por... ninguém.
O cronista e o padeiro são mesmo uns ninguéns. Em breve esta página estará jogada no chão, no lixo ou protegendo a parede pro pintor. Ora, o pão e a crônica são retratos puros da banalidade cotidiana. Podem ser consumidos acompanhados do cafezinho, deitado à rede, no escritório... Em qualquer canto e hora. Mas reparem bem: o pão é pouco saboreado tamanho o costume do dia-a-dia. É assim com a crônica. Se o cafezinho está amargo ou a rotina pede pressa, logo o pãozinho é renegado; o jornal é posto de lado.
Outro papa da crônica, Luís Fernando Veríssimo diz que o cronista é como galinha: bota seu ovo regularmente. E talvez o cronista seja mesmo um galinha. Não por sair por aí pegando qualquer fato de esquina para jogar no jornal e chamar de seu. Definitivamente, não. O cronista é mesmo esta galinha descrita por Veríssimo, que põe seus textos na obrigação regular de preencher espaços de jornal – velho ofício egoísta do monólogo do eu afirmo e ninguém contesta.
Digo mais: cronista de província é mero repasse de causos da esquina, dos papos de boteco. Se o osso do ofício manda se ater às atualidades sem extinguir o saudosismo do passado, o provinciano metido a escrivinhador há de se prender às fofocas da janela; ao caminhar apressado do rapaz na calçada, com os pés apontando dez pras duas; ou à solidão das mulheres divorciadas. Se tudo cabe na poesia, a crônica consegue abocanhar, também, o universo poético. Daí tamanha generalidade. Por isso os assuntos sempre leves. E o registro fulgural dos fatos banais.
E esta talvez sejam as razões de seus autores serem sempre meros escritores de jornal, fadados à redoma da província e ao reconhecimento de dois ou três leitores da mesma rua de acontecências. É que a crônica é o filho pobre; o samba da literatura. Mora no barraco e assiste debaixo a rotina dos nobres literatos em suas coberturas de luxo. E o cronista é esta carne de açougue de vísceras cotidianas expostas, aberta ao consumo alheio. E há os que, sem melhor alternativa, ainda prefira, para um bom cozido de banalidades, a carne de segunda.
Tem texto pronto? Escuto esta pergunta há dez anos. A resposta afirmativa ensejava um escrito banal publicado neste mesmo espaço. O diferencial confortava minha timidez: apenas meu e-mail. Agora, olho para o “amigo leitor”. Olhar cansado; cabelo mal definido mesmo sob photoshop. Pior: nome destacado na abertura para substituir dos maiores da ralada profissão. Não bastasse, a página requer talento literário. Mesmo a crônica confiada às migalhas de tudo; um resto de banquete literário, como escreveu Rubem Braga. É dele a metáfora perfeita do cronista, em texto intitulado O padeiro.
O padeiro deixava o pão diariamente na residência de Rubem Braga. E gritava ao bater à porta: “Não é ninguém, é o padeiro!”. Aprendera de ouvido, quando alguém de dentro da casa perguntava quem era e a empregada ou outro qualquer respondia: “Ninguém, é o padeiro”. O cronista aproveitou o fato e metaforizou a figura do pão quentinho com o jornal, deixados cedinho na porta de cada lar – produtos feitos por... ninguém.
O cronista e o padeiro são mesmo uns ninguéns. Em breve esta página estará jogada no chão, no lixo ou protegendo a parede pro pintor. Ora, o pão e a crônica são retratos puros da banalidade cotidiana. Podem ser consumidos acompanhados do cafezinho, deitado à rede, no escritório... Em qualquer canto e hora. Mas reparem bem: o pão é pouco saboreado tamanho o costume do dia-a-dia. É assim com a crônica. Se o cafezinho está amargo ou a rotina pede pressa, logo o pãozinho é renegado; o jornal é posto de lado.
Outro papa da crônica, Luís Fernando Veríssimo diz que o cronista é como galinha: bota seu ovo regularmente. E talvez o cronista seja mesmo um galinha. Não por sair por aí pegando qualquer fato de esquina para jogar no jornal e chamar de seu. Definitivamente, não. O cronista é mesmo esta galinha descrita por Veríssimo, que põe seus textos na obrigação regular de preencher espaços de jornal – velho ofício egoísta do monólogo do eu afirmo e ninguém contesta.
Digo mais: cronista de província é mero repasse de causos da esquina, dos papos de boteco. Se o osso do ofício manda se ater às atualidades sem extinguir o saudosismo do passado, o provinciano metido a escrivinhador há de se prender às fofocas da janela; ao caminhar apressado do rapaz na calçada, com os pés apontando dez pras duas; ou à solidão das mulheres divorciadas. Se tudo cabe na poesia, a crônica consegue abocanhar, também, o universo poético. Daí tamanha generalidade. Por isso os assuntos sempre leves. E o registro fulgural dos fatos banais.
E esta talvez sejam as razões de seus autores serem sempre meros escritores de jornal, fadados à redoma da província e ao reconhecimento de dois ou três leitores da mesma rua de acontecências. É que a crônica é o filho pobre; o samba da literatura. Mora no barraco e assiste debaixo a rotina dos nobres literatos em suas coberturas de luxo. E o cronista é esta carne de açougue de vísceras cotidianas expostas, aberta ao consumo alheio. E há os que, sem melhor alternativa, ainda prefira, para um bom cozido de banalidades, a carne de segunda.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Renúncia fiscal aos artistas
A renúncia fiscal à lei de incentivo à cultura Câmara Cascudo, anunciada semana passada pela governadora Wilma de Faria pareceu aquela espera pela divulgação do novo reajuste na taxa de juros pelo Banco Central. Vieram os mesmos R$ 4 milhões dos últimos sete anos. À época, início da lei, produtores desconheciam o conteúdo legislativo, empresas desconfiavam do benefício e artistas permaneciam desamparados. Resumo: o dinheiro sobrava. O tempo passa e a poupança Bamerindus da Fundação José Gugu continua com o mesmo valor e teor, claramente ultrapassados.
Talvez o maior beneficiado nestes quase dez anos de implantação da lei, o produtor Jomardo Jomas – idealizador do Mada – estima que o valor ideal da renúncia fiscal hoje seria de R$ 8 milhões, desde que acompanhasse mudanças na lei, como criação de novas taxas de desconto de ICMS conforme o tamanho da empresa. Seria uma forma de incentivo às empresas de pequeno e médio porte participarem da cultura potiguar. Da forma como está, quem se “atreve” a patrocinar a cultura são as grandes empresas cujos 2% de desconto do ICMS significam recursos vultosos e compensatórios ao patrocínio.
O que tem ocorrido nos últimos anos é a concentração de 80% dos R$ 4 milhões para cinco ou seis projetos. Só o Mada e o Circo da Luz abocanham juntos quase R$ 1 milhão. Isso porque são projetos grandes, de forte apelo midiático e retorno publicitário – exatamente o que as empresas querem. Ou qual a vantagem para uma empresa como a Cosern patrocinar a reedição de um grande livro? Com isso, projetos menores e de importância cultural e social imprescindíveis ficam sequer com a cereja do bolo. Alguns recebem o pirulito por alguns anos e, quando menos espera, o garoto malvado toma o doce da criança porque ela, em tenra idade, já deveria ter aprendido a fazer seu próprio pirulito.
Esse semestre a Lei CC segue para a Assembléia Legislativa para discutir mudanças. É a vez dos diletos edis terem a humildade de ouvir a única voz capaz de discernir sobre o assunto naquela casa: Fernando Mineiro. Suas novas propostas, inclusive, estão no site pessoal, como também as modificações pertinentes à Lei Rouanet (federal), que bem poderiam ter efeito cascata por aqui. Seria uma solução para diminuir a dependência dos artistas à iniciativa privada e democratizar mais a distribuição dos recursos. E como seria isso? Por meio do que já se tem cobrado há muito: um fundo de cultura, que tanto no âmbito municipal quanto estadual sequer saíram do ovo. Talvez, só para a próxima páscoa.
Talvez o maior beneficiado nestes quase dez anos de implantação da lei, o produtor Jomardo Jomas – idealizador do Mada – estima que o valor ideal da renúncia fiscal hoje seria de R$ 8 milhões, desde que acompanhasse mudanças na lei, como criação de novas taxas de desconto de ICMS conforme o tamanho da empresa. Seria uma forma de incentivo às empresas de pequeno e médio porte participarem da cultura potiguar. Da forma como está, quem se “atreve” a patrocinar a cultura são as grandes empresas cujos 2% de desconto do ICMS significam recursos vultosos e compensatórios ao patrocínio.
O que tem ocorrido nos últimos anos é a concentração de 80% dos R$ 4 milhões para cinco ou seis projetos. Só o Mada e o Circo da Luz abocanham juntos quase R$ 1 milhão. Isso porque são projetos grandes, de forte apelo midiático e retorno publicitário – exatamente o que as empresas querem. Ou qual a vantagem para uma empresa como a Cosern patrocinar a reedição de um grande livro? Com isso, projetos menores e de importância cultural e social imprescindíveis ficam sequer com a cereja do bolo. Alguns recebem o pirulito por alguns anos e, quando menos espera, o garoto malvado toma o doce da criança porque ela, em tenra idade, já deveria ter aprendido a fazer seu próprio pirulito.
Esse semestre a Lei CC segue para a Assembléia Legislativa para discutir mudanças. É a vez dos diletos edis terem a humildade de ouvir a única voz capaz de discernir sobre o assunto naquela casa: Fernando Mineiro. Suas novas propostas, inclusive, estão no site pessoal, como também as modificações pertinentes à Lei Rouanet (federal), que bem poderiam ter efeito cascata por aqui. Seria uma solução para diminuir a dependência dos artistas à iniciativa privada e democratizar mais a distribuição dos recursos. E como seria isso? Por meio do que já se tem cobrado há muito: um fundo de cultura, que tanto no âmbito municipal quanto estadual sequer saíram do ovo. Talvez, só para a próxima páscoa.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Renúncia municipal sai este mês com R$ 3 mi
Segundo a Funcarte, a renúncia fiscal concedida pela prefeitura de Natal por meio da Lei municipal de incentivo à cultura Djalma Maranhão sai ainda este mês com leve aumento de R$ 2,9 milhões do ano passado para pouco mais de R$ 3 milhões este ano. A responsável pelos projetos da Lei, Scila Gabel, explicou que a demora se deve à adequação da Lei à Lei de Responsabilidade Fiscal e consequente análise a aprovação pela Câmara Municipal de Natal. Ou seja: acredito que as coisas caminhem mais rápidas, agora que as duas leis - ainda carentes de aperfeiçoamentos - foram ou serão decretadas.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
R$ 4 mi para a cultura do RN
A governadora Wilma de Faria assinou faz alguns minutos o decreto que estabelece teto de R$ 4 milhões ao ano de renúncia fiscal à Lei Câmara Cascudo de incentivo à cultura local. A medida será publicada amanhã 9) no Diário Oficial do Estado (DOE). É desnecessário ressaltar a importância e generosidade do valor e da assinatura, tampouco o que o Governo do Estado tem procurado fazer pela cultura local e não tem conseguido. Motivos? Vejam a foto mais abaixo, tirada durante a mesma reunião de alguns minutos. Talvez seja fadiga.
Enfim, para quem desconhece, a Lei Câmara Cascudo de incentivo à cultura é uma lei estadual que, através da renúncia de ICMS, busca estimular a cultura local. Nos últimos seis anos (2003-2008), o Governo do Estado financiou projetos culturais – através da Lei – que somam investimentos de mais de R$ 27,2 milhões. Do total destes recursos, R$ 21,9 milhões foram de renúncia fiscal (recursos do Governo) e o restante (R$ 5.2 milhões) das empresas privadas capitalizadas pelos projetos culturais.
Nesses seis anos, foram beneficiados 411 projetos culturais nas mais diversas manifestações. Os projetos são selecionados por uma comissão responsável pela análise de cada uma das propostas apresentadas, como a IV Feira do Livro de Mossoró, o projeto Artes da Vila, o Festival de Música do Beco da Lama (MPBeco), o Circo da Luz, entre outros. Somente em 2008, o Governo do Estado financiou quase R$ 1 milhão em projetos, por intermédio da Lei. Somente o Mada papou redondos R$ 100 mil do Governo. Mas não vamos discutir isso agora para não fazer barulho. Zzzzzz
Enfim, para quem desconhece, a Lei Câmara Cascudo de incentivo à cultura é uma lei estadual que, através da renúncia de ICMS, busca estimular a cultura local. Nos últimos seis anos (2003-2008), o Governo do Estado financiou projetos culturais – através da Lei – que somam investimentos de mais de R$ 27,2 milhões. Do total destes recursos, R$ 21,9 milhões foram de renúncia fiscal (recursos do Governo) e o restante (R$ 5.2 milhões) das empresas privadas capitalizadas pelos projetos culturais.
Nesses seis anos, foram beneficiados 411 projetos culturais nas mais diversas manifestações. Os projetos são selecionados por uma comissão responsável pela análise de cada uma das propostas apresentadas, como a IV Feira do Livro de Mossoró, o projeto Artes da Vila, o Festival de Música do Beco da Lama (MPBeco), o Circo da Luz, entre outros. Somente em 2008, o Governo do Estado financiou quase R$ 1 milhão em projetos, por intermédio da Lei. Somente o Mada papou redondos R$ 100 mil do Governo. Mas não vamos discutir isso agora para não fazer barulho. Zzzzzz
Um pilão potiguar
Quem escuta a música de Dudé Viana identifica a nordestinidade impregnada em cada melodia tocada. Não pelas parcerias musicais com o folclorista Deífilo Gurgel ou a poeta Zila Mamede. Dudé carrega mesmo é a voz do interior potiguar, misturada ao violão tocado com simplicidade e acompanhado de causos de vida sofrida quando precisou pedir esmola no Rio de Janeiro e dormir várias noites no aeroporto de Salvador até gravar suas primeiras músicas. Depois de quase 40 anos na batalha vieram cinco Cds e o reconhecimento prestado hoje pelo projeto Poticanto – um canto 100% potiguar, quando o violonista e também compositor, Zeca Brasil, interpretará os sucessos de Dudé Viana no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel.
Dudé tem viajado diversas capitais com seu Papo Show – Isso só Acontece Comigo! O título é auto-explicativo. A apresentação é uma mescla de contação de histórias tragicômicas e músicas – muitas inspiradas nas próprias acontecências da vida deste caraubense nascido em sítio, na localidade de Poço Redondo. Como o engano policial que o prendeu por dois anos na penitenciária João Chaves, quando o culpado verdadeiro por um dos assaltos mais populares da história do Rio Grande, Dedé (e não Dudé), também da família Carneiro, foi morto em tiroteio com a polícia. No show, Dudé conta e canta essas histórias como se tomasse café na sala junto aos amigos. O conceito da apresentação surgiu após apresentação do cantor em Brasília, a pedido de jornalistas.
Algumas histórias passam batido no show sempre intimista pela própria suavidade de voz de Dudé, como o primeiro instrumento do futuro compositor. As influências musicais não vieram do pai vaqueiro ou da mãe dona-de-casa. Foi o avô João Francisco Viana, cantador e repentista, quem incentivou Dudé a construir seu primeiro violão, feito com tiras de camas de ar, presas a uma ripa pregada a uma lata de goiabada. Aos dez anos, o menino Dudé iniciava seus primeiros acordes musicais em uma gaita. Da melodia de Luís Gonzaga saíram as primeiras entoadas e as primeiras histórias contadas no show, quando se aproveitava de gaiteiro para conquistar a primeira namorada, os “amassos” por trás do cemitério, deitados por sob os estrumes da vaga...
Dudé deixa o sertão potiguar em 1969, aos 19 anos, para tentar carreira musical na capital. Em 1972 já principiava o que viria a ser o show de amanhã, quando se apresentava no programa infanto-juvenil Bom Dia Natal, transmitido ao vivo e aos domingos pela antiga Rádio Trairi (hoje CBN). Durante oito meses Dudé apresentou música e humor no programa cujo âncora era Doscagíbio dos Santos. Em 1974, se muda de vez para o Rio de Janeiro, após tentativas frustradas. Funda o grupo Galho Seco, em 1978 para apresentações na capital carioca e adjacências até 1982. Nesse intere, lança seu primeiro disco: Seca no Sertão, em 1980. Hoje, o compositor se divide artisticamente entre o Rio Grande do Norte, São Paulo e Rio de Janeiro.
O show de hoje resgata histórias antigas, de quando Dudé abrigava em atenção e apoio o amigo Zeca Brasil no Rio de Janeiro. Tempos difíceis que fez criar uma admiração mútua. Em 1997, Zeca gravava Olhos de Cristal, de Dudé, em seu primeiro Cd, intitulado Identidade. “Tenho todos os Cds de Dudé em casa. Gosto da simplicidade, do som de sua música. Foi essa afinidade que me ajudou a escolher Dudé para ser homenageado”, afirma o amigo Zeca Brasil, também já homenageado pelo Poticanto na voz de Lene Macedo e dono de vasto repertório de excelentes canções.
Papo e música ao vivo
No dia do show, Dudé Viana também vai vender seu 5º trabalho musical: Papo Show, Isso só Acontece Comigo!, gravado ao vivo em várias cidades brasileiras. O Cd também leva algumas das histórias contadas por Dudé nos shows. Mais do que isso: apresenta poesia de Deífilo Gurgel (O Pilão Sertanejo) e Zila Mamede (A Ponte) musicadas. A parceria com Aucides Sales na canção Cantófa e Jandi rende história potiguar de índios tapuias, o personagem João do Pega e dos dois protagonistas homônimos à composição – é uma história de fé comovente; quase a história de um mártir.
O Cd conta com a participação do grupo de forró pé-de-serra potiguar Meirinhos do Forró, na música Felicidade Aqui Tem Nome. E nada como um forró rasteiro na voz meio tímida, matuta de Dudé junto à sanfona dos Meirinhos. A composição – parceria com Gilvana Benevides – traz ainda a voz sempre bem posta, grave de Cláudio Freire, e canta costumes do sertão tão conhecido por Dudé. A experiente sanfona do parente Caçula Benevides, reconhecido no Oeste potiguar, também integra o Cd, na música Festa na Casa dos Carneiro.
Em As Rédeas Do Vaqueiro, Dudé e Tião Maia traçam um perfil de indumentárias, costumes e hábitos desta figura tão presente no sertão setentrional nordestino. Cascudo é sempre inspiração e serviu de luz para a composição Outdoor de Cultura Popular. Quando Dudé canta Olhe Pra Mim, entre agudos contidos pela voz tímida, meio fanha e nordestina, provoca a platéia a olhar para ele e para a própria alma. Em Ah! Se eu Fosse Um Poeta, homenagem à Sociedade dos Poetas Vivos e Afins e também o desabafo frustrado de quem já desejou mesmo participar do fazer poético.
O show termina com música de Roberto Homem, dedicada a Dudé quando esteve preso por engano, emendada com Canto de Liberdade, de mesma temática triste e emocionante, cuja última frase sintetiza a vida do cantor: “Depois do bem da vida, o bem maior é a liberdade”.
Zeca Brasil: cidadão potiguar
Apesar do sobrenome artístico, Zeca é potiguar. Nem que seja de coração. Perguntado se é maranhense, responde enfático: “Era! Até ganhei cidadania potiguar ao ser homenageado no Poticanto por Lene Macedo”. De fato Zeca Brasil nasceu no Maranhão e adotou Natal há 25 anos. Veio de família de pescadores, superou as adversidades de quem desenhava as cordas do violão no próprio braço para praticar seus primeiros acordes. Zeca é dono de estilo particular, embora carregue aquele ecletismo dos cantores da noite. São temas instrumentais, baladas, reggaes, blues, bossas e baiões que revelam a aptidão natural e facilidade em cantar e tocar.
Zeca também tem seu forte na composição. Com a canção Caminhos do Prazer, na voz da forrozeira Eliane, ganhou o Brasil. E na voz de Zeca recebe tons mais nobres. Com Lene Cardoso, a composição Nordestinamente venceu o disputado concurso Forraço, em 2007. A participação em festivais e projetos musicais foi a tônica melódica da carreira musical de Zeca. Só de Seis e Meia foram quatro apresentações, sendo o último abrindo o show da dupla de gaúchos Kleiton e Kledir. Já são três Cds gravados e o próximo – Pra Não Dizer que Não Falei do Verso – será lançado nos próximos meses. O repertório recheado de canções finalistas de festivais e algumas de repercussão nacional fazem de Zeca Brasil dos grande compositores da música popular potiguar.
Poticanto – um canto 100% melhor
Um dos projetos mais originais em voga no Estado - o Poticanto - deve receber nos próximos dias o patrocínio de uma mega estatal brasileira, dentro dos benefícios da lei de incentivo Câmara Cascudo. Com isso, o produtor Nelson Rebouças disse que o projeto poderá concretizar o sonho de gravar em Cd e Dvd o maior acervo de música autoral local deste Rio Grande - um verdadeiro registro da música potiguar digno de elogio de Leide Câmara.
Mesmo para produtores musicais, o Poticanto: um canto 100% potiguar pareceu um projeto fadado ao fracasso, segundo afirma Nelson. Ora, sustentar durante anos edições quinzenais apenas com artistas da terra que possuam trabalho autoral considerável é algo quase inimaginável. Nelson Rebouças apostou na idéia e no talento potiguar e, após seis anos de trabalho, continua com bom número de pessoas no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel. Na última edição, cerca de 120 pessoas compareceram para ver Romildo Soares interpretando Geraldo Carvalho.
E para quem pensa que as opções estão se esgotando, Nelson afirma que já tem pelo menos 52 compositores potiguares ainda na fila para serem homenageados e doze parelhas já agendadas para os próximos meses. O projeto oferece uma homenagem inédita e uma reedição a cada mês. Neste fim de abril, Amab interpreta Bartô Galeno na reedição do mês.
Para maio, Rodrigo Cruz homenageia a banda bluzeira Mad Dogs e a reedição traz de volta Valéria Oliveira – de regresso dos Esteites – para cantar Romildo Soares. Em junho, já agendada a homenagem de Lele Alves ao compositor Enock Domingos e a reedição com William Guedes interpretando a música de Franklin Mário.
Dudé tem viajado diversas capitais com seu Papo Show – Isso só Acontece Comigo! O título é auto-explicativo. A apresentação é uma mescla de contação de histórias tragicômicas e músicas – muitas inspiradas nas próprias acontecências da vida deste caraubense nascido em sítio, na localidade de Poço Redondo. Como o engano policial que o prendeu por dois anos na penitenciária João Chaves, quando o culpado verdadeiro por um dos assaltos mais populares da história do Rio Grande, Dedé (e não Dudé), também da família Carneiro, foi morto em tiroteio com a polícia. No show, Dudé conta e canta essas histórias como se tomasse café na sala junto aos amigos. O conceito da apresentação surgiu após apresentação do cantor em Brasília, a pedido de jornalistas.
Algumas histórias passam batido no show sempre intimista pela própria suavidade de voz de Dudé, como o primeiro instrumento do futuro compositor. As influências musicais não vieram do pai vaqueiro ou da mãe dona-de-casa. Foi o avô João Francisco Viana, cantador e repentista, quem incentivou Dudé a construir seu primeiro violão, feito com tiras de camas de ar, presas a uma ripa pregada a uma lata de goiabada. Aos dez anos, o menino Dudé iniciava seus primeiros acordes musicais em uma gaita. Da melodia de Luís Gonzaga saíram as primeiras entoadas e as primeiras histórias contadas no show, quando se aproveitava de gaiteiro para conquistar a primeira namorada, os “amassos” por trás do cemitério, deitados por sob os estrumes da vaga...
Dudé deixa o sertão potiguar em 1969, aos 19 anos, para tentar carreira musical na capital. Em 1972 já principiava o que viria a ser o show de amanhã, quando se apresentava no programa infanto-juvenil Bom Dia Natal, transmitido ao vivo e aos domingos pela antiga Rádio Trairi (hoje CBN). Durante oito meses Dudé apresentou música e humor no programa cujo âncora era Doscagíbio dos Santos. Em 1974, se muda de vez para o Rio de Janeiro, após tentativas frustradas. Funda o grupo Galho Seco, em 1978 para apresentações na capital carioca e adjacências até 1982. Nesse intere, lança seu primeiro disco: Seca no Sertão, em 1980. Hoje, o compositor se divide artisticamente entre o Rio Grande do Norte, São Paulo e Rio de Janeiro.
O show de hoje resgata histórias antigas, de quando Dudé abrigava em atenção e apoio o amigo Zeca Brasil no Rio de Janeiro. Tempos difíceis que fez criar uma admiração mútua. Em 1997, Zeca gravava Olhos de Cristal, de Dudé, em seu primeiro Cd, intitulado Identidade. “Tenho todos os Cds de Dudé em casa. Gosto da simplicidade, do som de sua música. Foi essa afinidade que me ajudou a escolher Dudé para ser homenageado”, afirma o amigo Zeca Brasil, também já homenageado pelo Poticanto na voz de Lene Macedo e dono de vasto repertório de excelentes canções.
Papo e música ao vivo
No dia do show, Dudé Viana também vai vender seu 5º trabalho musical: Papo Show, Isso só Acontece Comigo!, gravado ao vivo em várias cidades brasileiras. O Cd também leva algumas das histórias contadas por Dudé nos shows. Mais do que isso: apresenta poesia de Deífilo Gurgel (O Pilão Sertanejo) e Zila Mamede (A Ponte) musicadas. A parceria com Aucides Sales na canção Cantófa e Jandi rende história potiguar de índios tapuias, o personagem João do Pega e dos dois protagonistas homônimos à composição – é uma história de fé comovente; quase a história de um mártir.
O Cd conta com a participação do grupo de forró pé-de-serra potiguar Meirinhos do Forró, na música Felicidade Aqui Tem Nome. E nada como um forró rasteiro na voz meio tímida, matuta de Dudé junto à sanfona dos Meirinhos. A composição – parceria com Gilvana Benevides – traz ainda a voz sempre bem posta, grave de Cláudio Freire, e canta costumes do sertão tão conhecido por Dudé. A experiente sanfona do parente Caçula Benevides, reconhecido no Oeste potiguar, também integra o Cd, na música Festa na Casa dos Carneiro.
Em As Rédeas Do Vaqueiro, Dudé e Tião Maia traçam um perfil de indumentárias, costumes e hábitos desta figura tão presente no sertão setentrional nordestino. Cascudo é sempre inspiração e serviu de luz para a composição Outdoor de Cultura Popular. Quando Dudé canta Olhe Pra Mim, entre agudos contidos pela voz tímida, meio fanha e nordestina, provoca a platéia a olhar para ele e para a própria alma. Em Ah! Se eu Fosse Um Poeta, homenagem à Sociedade dos Poetas Vivos e Afins e também o desabafo frustrado de quem já desejou mesmo participar do fazer poético.
O show termina com música de Roberto Homem, dedicada a Dudé quando esteve preso por engano, emendada com Canto de Liberdade, de mesma temática triste e emocionante, cuja última frase sintetiza a vida do cantor: “Depois do bem da vida, o bem maior é a liberdade”.
Zeca Brasil: cidadão potiguar
Apesar do sobrenome artístico, Zeca é potiguar. Nem que seja de coração. Perguntado se é maranhense, responde enfático: “Era! Até ganhei cidadania potiguar ao ser homenageado no Poticanto por Lene Macedo”. De fato Zeca Brasil nasceu no Maranhão e adotou Natal há 25 anos. Veio de família de pescadores, superou as adversidades de quem desenhava as cordas do violão no próprio braço para praticar seus primeiros acordes. Zeca é dono de estilo particular, embora carregue aquele ecletismo dos cantores da noite. São temas instrumentais, baladas, reggaes, blues, bossas e baiões que revelam a aptidão natural e facilidade em cantar e tocar.
Zeca também tem seu forte na composição. Com a canção Caminhos do Prazer, na voz da forrozeira Eliane, ganhou o Brasil. E na voz de Zeca recebe tons mais nobres. Com Lene Cardoso, a composição Nordestinamente venceu o disputado concurso Forraço, em 2007. A participação em festivais e projetos musicais foi a tônica melódica da carreira musical de Zeca. Só de Seis e Meia foram quatro apresentações, sendo o último abrindo o show da dupla de gaúchos Kleiton e Kledir. Já são três Cds gravados e o próximo – Pra Não Dizer que Não Falei do Verso – será lançado nos próximos meses. O repertório recheado de canções finalistas de festivais e algumas de repercussão nacional fazem de Zeca Brasil dos grande compositores da música popular potiguar.
Poticanto – um canto 100% melhor
Um dos projetos mais originais em voga no Estado - o Poticanto - deve receber nos próximos dias o patrocínio de uma mega estatal brasileira, dentro dos benefícios da lei de incentivo Câmara Cascudo. Com isso, o produtor Nelson Rebouças disse que o projeto poderá concretizar o sonho de gravar em Cd e Dvd o maior acervo de música autoral local deste Rio Grande - um verdadeiro registro da música potiguar digno de elogio de Leide Câmara.
Mesmo para produtores musicais, o Poticanto: um canto 100% potiguar pareceu um projeto fadado ao fracasso, segundo afirma Nelson. Ora, sustentar durante anos edições quinzenais apenas com artistas da terra que possuam trabalho autoral considerável é algo quase inimaginável. Nelson Rebouças apostou na idéia e no talento potiguar e, após seis anos de trabalho, continua com bom número de pessoas no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel. Na última edição, cerca de 120 pessoas compareceram para ver Romildo Soares interpretando Geraldo Carvalho.
E para quem pensa que as opções estão se esgotando, Nelson afirma que já tem pelo menos 52 compositores potiguares ainda na fila para serem homenageados e doze parelhas já agendadas para os próximos meses. O projeto oferece uma homenagem inédita e uma reedição a cada mês. Neste fim de abril, Amab interpreta Bartô Galeno na reedição do mês.
Para maio, Rodrigo Cruz homenageia a banda bluzeira Mad Dogs e a reedição traz de volta Valéria Oliveira – de regresso dos Esteites – para cantar Romildo Soares. Em junho, já agendada a homenagem de Lele Alves ao compositor Enock Domingos e a reedição com William Guedes interpretando a música de Franklin Mário.
terça-feira, 7 de abril de 2009
De Mário de Andrade e Chico Antônio
O encontro que marcou a história cultural potiguar poderia ser lembrado além destas mal traçadas linhas. Quando o pai da Semana de Arte Moderna pulou a muralha deste Rio Grande para documentar fatos e pessoas do Nordeste, ficou maravilhado com um embolador de cocos, morador do Engenho Bom Jardim, em Goianinha. As palavras de Mário Andrade, publicadas em revistas e jornais do país, para descrever Chico Antônio foram as seguintes: “Estou divinizado por uma das comoções mais formidáveis da minha vida”.
O local desse encontro inusitado, promovido pelo crítico de arte moderna Antônio Bento, permanece. O Engenho Bom Jardim é hoje herança do sobrinho-neto Amaro Lima. Funciona como sede do Instituto Cultural Antônio Bento, sem fins lucrativos e voltado à pesquisa da cultura popular potiguar. Há dez anos Amaro afirma tentar, junto ao poder público, fundar ali um memorial para preservar acervos de Antônio Bento, Mário de Andrade e Chico Antônio, hoje espalhados entre membros de família, historiadores e museus outros.
A Casa Grande do Engenho, que hospedou Mário de Andrade em 1928, é um conjunto arquitetônico raro, reconhecido por técnicos do Ministério da Cultura. Já é monumento tombado pelo Patrimônio Arquitetônico Estadual. Está hoje coberto por uma lona colocada pela Fundação José Gugu para a sonhada revitalização. Amaro ainda luta para viabilizar o projeto do memorial, e também de um teatro de arena onde um dia funcionaram os currais do Engenho, destinado à apresentação de grupos folclóricos.
Segundo Amaro, a deputada federal Fátima Bezerra já levou o projeto a Brasília, para inclusão de emenda como novo ponto turístico da região. Se aprovado, as obras no Engenho – com área de 2,5 mil hectares – começarão no segundo semestre deste ano. À espera de alguma resposta da capital federal, Amaro ainda não levou o projeto à apreciação da Lei de Incentivo Câmara Cascudo. “É difícil sensibilizar as autoridades para o fato”, reconhece.
Segundo Amaro, a idéia do projeto é conservar a arquitetura do Casarão – engenho, destinaria, casa onde morou seus pais, - e propor a instalação de memorial para abrigar acervos literários, correspondências raras e acervo fotográfico, sobretudo da estadia de Mário de Andrade na Casa, hoje de posse de primos que já se dispuseram à doação, e pertences de Chico Antônio, que morou na Fazenda antes de ganhar as estradas de Pedro Velho. “O Casarão receberia o nome de Antonio Bento; a arena se chamaria Chico Antônio; e faríamos ainda o Memorial de Arte Popular Mário de Andrade”, idealiza Amaro.
E só para lembrar, este ano marca 80 anos da estadia de Mário de Andrade neste Rio Grande. Seria uma boa oportunidade para homenagear não só o poeta modernista, mas também nosso embolador de cocos Chico Antônio, já que sequer a grafia do Word reconheça o que seja um embolador.
O local desse encontro inusitado, promovido pelo crítico de arte moderna Antônio Bento, permanece. O Engenho Bom Jardim é hoje herança do sobrinho-neto Amaro Lima. Funciona como sede do Instituto Cultural Antônio Bento, sem fins lucrativos e voltado à pesquisa da cultura popular potiguar. Há dez anos Amaro afirma tentar, junto ao poder público, fundar ali um memorial para preservar acervos de Antônio Bento, Mário de Andrade e Chico Antônio, hoje espalhados entre membros de família, historiadores e museus outros.
A Casa Grande do Engenho, que hospedou Mário de Andrade em 1928, é um conjunto arquitetônico raro, reconhecido por técnicos do Ministério da Cultura. Já é monumento tombado pelo Patrimônio Arquitetônico Estadual. Está hoje coberto por uma lona colocada pela Fundação José Gugu para a sonhada revitalização. Amaro ainda luta para viabilizar o projeto do memorial, e também de um teatro de arena onde um dia funcionaram os currais do Engenho, destinado à apresentação de grupos folclóricos.
Segundo Amaro, a deputada federal Fátima Bezerra já levou o projeto a Brasília, para inclusão de emenda como novo ponto turístico da região. Se aprovado, as obras no Engenho – com área de 2,5 mil hectares – começarão no segundo semestre deste ano. À espera de alguma resposta da capital federal, Amaro ainda não levou o projeto à apreciação da Lei de Incentivo Câmara Cascudo. “É difícil sensibilizar as autoridades para o fato”, reconhece.
Segundo Amaro, a idéia do projeto é conservar a arquitetura do Casarão – engenho, destinaria, casa onde morou seus pais, - e propor a instalação de memorial para abrigar acervos literários, correspondências raras e acervo fotográfico, sobretudo da estadia de Mário de Andrade na Casa, hoje de posse de primos que já se dispuseram à doação, e pertences de Chico Antônio, que morou na Fazenda antes de ganhar as estradas de Pedro Velho. “O Casarão receberia o nome de Antonio Bento; a arena se chamaria Chico Antônio; e faríamos ainda o Memorial de Arte Popular Mário de Andrade”, idealiza Amaro.
E só para lembrar, este ano marca 80 anos da estadia de Mário de Andrade neste Rio Grande. Seria uma boa oportunidade para homenagear não só o poeta modernista, mas também nosso embolador de cocos Chico Antônio, já que sequer a grafia do Word reconheça o que seja um embolador.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Dois pesos, duas medidas
Pergunta: porque o Idema e não a Fundação José Gugu é a responsável pelo patrocínio e coordenação do excelente projeto cultural Som da Mata? Só porque ocorre no Parque das Dunas? E porque precisou a Sethas intervir para acontecer a revitalização do Presépio de Natal? Só porque a secretaria propõe os incentivos fiscais e promove os programais sociais aos artesãos?
Agora, há que se louvar o esforço da FJ(g) na captação de recursos pela lei de incentivo Câmara Cascudo para o projeto Poticanto. Realmente é uma aposta do produtor Nelson Rebouças que a insitituição encampou e deu certo. E a gestão petista, não da FJ(g), mas do deputado Fernando Mineiro, tem lutado para por em voga ainda este semestre a Lei do Patrimônio Vivo.
Agora, há que se louvar o esforço da FJ(g) na captação de recursos pela lei de incentivo Câmara Cascudo para o projeto Poticanto. Realmente é uma aposta do produtor Nelson Rebouças que a insitituição encampou e deu certo. E a gestão petista, não da FJ(g), mas do deputado Fernando Mineiro, tem lutado para por em voga ainda este semestre a Lei do Patrimônio Vivo.
domingo, 5 de abril de 2009
Memórias do MPBeco 2008
Vagando à deriva pela net encontrei esse texto que fiz ano passado pósMPBeco, que está de inscrições abertas até 30 deste mês e previsão de festival para maio. Já conversei com pelos menos três fortes concorrentes, todos com apostas seguras de suas músicas. A disputa vai ser boa. Os interessados deverão retirar o Regulamento do Festival, bem como sua Ficha de Inscrição nos pontos de inscrição determinados pela Produção do Festival. Em Natal, as inscrições poderão ser realizadas nos seguintes locais:
Disco Fitas – Rua Princesa Isabel, n. 700 – Cidade Alta;
Natal Groove – Rua Floriano Peixoto, n. 567 – Petrópolis;
Sebo Balalaika – Rua Vigário Bartolomeu, n. 565 – Cidade Alta.
Disco Fitas – Rua Princesa Isabel, n. 700 – Cidade Alta;
Natal Groove – Rua Floriano Peixoto, n. 567 – Petrópolis;
Sebo Balalaika – Rua Vigário Bartolomeu, n. 565 – Cidade Alta.
"Cai a tarde e a solidão. A Cidade Alta é mais centro: é movimento. O arrebol abocanha o Potengi e transpira o início da festa. A praça já é do povo. Quase hippies. Natal é refundada em música, sob o manto de Cascudo e do índio Poti. A Natal de um deus mar que vive para o sol é também canibal. Tem fome de roque. A MPB marginal, regional encontra ecos no beco. Suga o elixir das tribos de intelectuais, músicos, jornalistas e da gente livre. E espalha o perfume pronto à alma dedicada à música.
Mirabeaux é mais Mirabô do que nunca. Um potiguar de mote diferente, de tropicália jerimum. De alma branca. Das cores dos mares daqui. Amacia o palco e a populaça. O antro é libertário. Estão presos ali a diversidade e a voz coletiva. A criança brinca na escada da pinacoteca. O rapaz de juba amarrada paquera a moça tatuada. Próximo à fila para a cerveja, Carlão grava as cenas com o olhar apurado. Romildo toma uma cerveja. Abimael ingere várias. Moisés de Lima passeia nervoso entre canibais. Petistas reunidos. Alexandro Gurgel registra tudo pelas lentes do beco.
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Na sopa do palco, o frevo come o hip hop. O carimbó janta o frevo. A MPB morde o carimbó. O regionalismo devora a MPB. E o rock natalense, meio grogs, lambe com ironia o regionalismo engasgado. Vencidos, vencedores. Todos saíram vitoriosos. Músicos e platéia, donos da palavra e da cicuta. São os votantes da democracia alheia. Os donos da praça, de coroa na mão. Por algumas noites foram felizes. Natal em festa, em festival. A música homenageada. A cultura aplaudida pela contra-cultura.
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Orquestra Boca Seca já é entoada seca. É o fim dos sábados no Centro de histórias. A dispersão encontra ruelas e serpenteia becos a procura das heranças de Cascudo. O palco cuspiu toda a poesia, que encontrou o lodo e caiu na vala. A música sepulcral do Potengi já se escuta. Começo, meio e fim da MBP do Beco Natal. A noite sem memórias há de esquecer estes dias. E Dessa Casa quero Lembranças. Do Caos. Dos Insanos. E a praça... A praça abraça o tédio e a loucura dos indigentes. Guarda no sótão da memória dias de euforia e dorme de novo o silêncio pacato dos dias comuns."
Dias modernos
Muito tempo sem leitura me deixa desnorteado; sem rumo. Os dias parecem mais confusos. Me falta alguém - os livros! - para me explicar alguns porquês. A necessidade do "ganha-pão" nos empurra contra o ócio necessário ao saber; à contemplação. Filmes hollywoodianos, Paulo Coelho e demais teorias de auto-ajuda trazem fórmulas fáceis de sucesso. Prefiro o realismo do cinema italiano ou das obras de Hemingway. Se O Velho e o Mar fosse filme americano, o sofrido Santiago havia de achar um tesouro escondido no mar. Prefiro a dureza da realidade, embora alimente também a ilusão necessária à vida. Por hora, 15 horas do dia completamente preenchidos de trabalho. É a necessidade, sem escapatória para "correr atrás do seu sonho". E meu sonho seria apenas mais tempo para leitura diária; para os livros empilhados na estante ainda virgens. Futuros amigos autores, talvez. Ora, somos solitários. Solicitei explicação para o conteúdo de um livro de Fitzgerald, e o escritor Fernando Monteiro foi certeiro em um pormenor: "Nascemos e morremos sós - essa é a verdade". Que seja na companhia do saber, então.
sábado, 4 de abril de 2009
Um Poticanto 100% melhor
Notícia boa: talvez o projeto cultural mais bacana em voga no Estado - o Poticanto - deve receber nos próximos dias o patrocínio de uma mega estatal brasileira, dentro dos benefícios da lei de incentivo Câmara Cascudo. Com isso, o produtor Nelson Rebouças disse que o projeto poderá concretizar o sonho de gravar em Cd e Dvd o maior acervo de música autoral local deste Rio Grande - um verdadeiro registro da música potiguar digno de elogio de Leide Câmara.
Para a próxima edição - faço questão de noticiar - o projeto apresenta dois artistas locais de talento ímpar: o exímio violonista Zeca Brasil, dono de uma voz suave, seresteira, homenageia nosso carnaubense Dudé Viana e sua simplicidade. Assisti show de Dudé no TCP. Ele conta histórias curiosíssimas de cada música, da sua vida de batalhas, sofrimentos (foi preso por engano durante três anos) e causos dignos de anedotário. Escutei o Cd de Dudé, também. Há música de poemas de Deífilo Gurgel, Zila Mamede e Cascudo, e outras músicas interessantes. Vale a pena.
Mesmo para produtores musicais, o Poticanto: um canto 100% potiguar pareceu um projeto fadado ao fracasso. Ora, sustentar durante anos edições quinzenais apenas com artistas da terra que possuam trabalho autoral considerável é algo quase inimaginável. Nelson Rebouças apostou na idéia e no talento potiguar e, após seis anos de trabalho, continua com bom número de pessoas no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel. Na última edição, cerca de 120 pessoas compareceram para ver Romildo Soares interpretando Geraldo Carvalho.
E para quem pensa que as opções estão se esgotando, Nelson afirma que já tem pelo menos 52 compositores potiguares ainda na fila para serem homenageados e doze parelhas já agendadas para os próximos meses. Uma delas eu achei interessantíssima: Rodrigo Cruz interpretando Carlos Alexandre. E há que se registrar o esforço da Fundação José Gugu em captar os recursos para este projeto. É realmente uma aposta que deu e tem dado certo.
Para a próxima edição - faço questão de noticiar - o projeto apresenta dois artistas locais de talento ímpar: o exímio violonista Zeca Brasil, dono de uma voz suave, seresteira, homenageia nosso carnaubense Dudé Viana e sua simplicidade. Assisti show de Dudé no TCP. Ele conta histórias curiosíssimas de cada música, da sua vida de batalhas, sofrimentos (foi preso por engano durante três anos) e causos dignos de anedotário. Escutei o Cd de Dudé, também. Há música de poemas de Deífilo Gurgel, Zila Mamede e Cascudo, e outras músicas interessantes. Vale a pena.
Mesmo para produtores musicais, o Poticanto: um canto 100% potiguar pareceu um projeto fadado ao fracasso. Ora, sustentar durante anos edições quinzenais apenas com artistas da terra que possuam trabalho autoral considerável é algo quase inimaginável. Nelson Rebouças apostou na idéia e no talento potiguar e, após seis anos de trabalho, continua com bom número de pessoas no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel. Na última edição, cerca de 120 pessoas compareceram para ver Romildo Soares interpretando Geraldo Carvalho.
E para quem pensa que as opções estão se esgotando, Nelson afirma que já tem pelo menos 52 compositores potiguares ainda na fila para serem homenageados e doze parelhas já agendadas para os próximos meses. Uma delas eu achei interessantíssima: Rodrigo Cruz interpretando Carlos Alexandre. E há que se registrar o esforço da Fundação José Gugu em captar os recursos para este projeto. É realmente uma aposta que deu e tem dado certo.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
De BBB e jornalismo cultural
Publico abaixo a matéria que fiz com o ex-BBB Alexandre, capa da edição do Muito de 2 de abril. A exposição do cara nos cadernos culturais de Natal foi criticada pelo jornalista Tácito Costa, em seu Substantivo Plural e gerou pequena discussão acerca dos cadernos de cultura da cidade – coisa que pleiteio faz tempo, cansei de ouvir as mesmas opiniões de quem nunca passou por Redação e já não me atenho mais ao assunto em outras plagas que não aqui, neste espaço. De antemão afirmo ao leitor deste blog que concordo – e não há como discordar – da opinião de Tácito.
Esse mero administrador de empresa partícipe de programa desvinculado de qualquer conteúdo cultural relevante nunca havia de merecer espaço em caderno de cultura. Claro, há numeroso público leitor para tal matéria e penso que um registro de que o cara promoveu coletiva de imprensa; que está em Natal e coisas do tipo, valem até pelo conceito mercadológico do jornal-empresa e interesse do assinante. A questão é o espaço da matéria. Na minha opinião, não é a editoria cultura.
Pautado para tal, procurei dar um tom diferente ao assunto; aproximar da cultura que queremos ler: matérias críticas, analíticas, de conteúdo, mesmo de assunto vazio. Esse ponto não foi colocado na discussão. Tampouco a melhoria estética e de conteúdo do jornal, cada vez menos avesso aos releases e agora com projeto gráfico mais interessante. As criticadas colunas sociais foram embora e nada disseram. Preferiam as críticas enquanto existiam. Fizemos excelentes matérias nos últimos meses, fora do tal agendão. Ninguém deu um pio.
Falo de uma maneira geral, não só de Tácito, sempre atento e combatente com nosso jornalismo cultural, graças a Deus. As críticas são válidas e oportunas. Já instiguei a discussão pro assunto, que julgo mais interessante do que listas de livros e escritores, também bacana (listas são sempre prazerosas!). O jornalismo cultural brasileiro está em decadência faz tempo. E o do nosso RN carece ainda de estrutura. É quase inimaginável um ou dois repórteres de cultura por jornal, quando em jornais de estados vizinhos são mais de oito.
Semana passada ligaram de Recife pra Redação. Atendi e perguntaram qual repórter cobria música, como se houvesse, como há lá, um repórter para cada segmento cultural: especialistas em literatura, música, artes visuais, dança... Aqui sou apenas eu. Aliás, sem as colunas sociais, ganhamos mais um repórter, mas a carga de trabalho permaneceu ou até aumentou com mais páginas para preencher. Na Tribuna é a mesma coisa. E no JH o repórter até divide trabalho com a editoria de Cidades.
Cito até outro exemplo da dificuldade diária que passamos. Meu editor (vai ficar puto que tou escrevendo isso..rs) pediu para reescrever release da banda Tihuana, que toca amanhã em Natal. Argumentei que valia apenas uma nota no roteiro de fim de semana. Ele concordou e perguntou: “O que eu ponho no lugar?”. Fiquei sem ação, sem sugestão. As que tinha já havia sugerido e escrito. Analisem: o editor precisa pensar em quatro, cinco pautas por dia. E pior: o repórter tem que escrevê-las.
Não dá tempo, minha gente! Não há como escapar do agendão, que, concordemos, também vale como matéria. Praticamente todos os dias, sem almoçar, chego atrasado no meu outro trabalho, no expediente da tarde. Enfim... Feito meu desabafo, segue abaixo meu texto sobre o tal Alexandre, que propositalmente preferi sequer botar seu sobrenome. Foi o que deu pra fazer:
“Um dos integrantes da casa mais vigiada do Brasil está em Natal. Calma, nada da presença de José Sarney, Renan Calheiros ou Fernando Collor na aldeia de Poti. A mão boba no Planalto continua à solta. Os olhos atentos da grande massa de eleitores miram outras celebridades: as do Big Brother. E quem voltou a Natal sempre escancarada às novidades foi o administrador-brother-recifense Alexandre, 35 anos. Cercado por holofotes, pela falta de assunto e pelas carnes do restaurante Sal e Brasa, o big brother concedeu coletiva à imprensa no início da tarde de ontem.
Segundo informa o google, Alexandre mora em Parnamirim e trabalha em agência bancária em Natal. Ao ser indicado por três integrantes foi eliminado do programa com 49% dos votos no terceiro paredão. Foi o mais votado entre os anônimos/celebridades Maximiliano e Priscila. É classificado como sortudo em vários sites preocupados com biografias de celebridades por ter entrado no lugar de outro participante, poupado por problemas de saúde. Ainda segundo o repórter google, Alexandre ficou no ‘‘lado A’’, porém gerou conflitos com alguns participantes de seu grupo e foi indicado ao paredão.
Alexandre foi ‘‘eliminado’’ do show da vida global após três semanas de programa. Durante o período participou da casa vidraçada e expôs sua intimidade ao Brasil. Seguiu a moda do tempo-hoje. O sucesso do ‘‘reality show’’ (show da realidade?) é explicado também pelo advento da internet. Ferramentas como webcam, blogs e fotologs, youtube e orkut expõem o festival da vida privada a quem deseja fuçar. Anônimos em busca de comentários, visibilidade. Diferente dos diários íntimos de outrora, dos escritos secretos, introspectivos. A mania da exposição hoje já excede a mídia televisiva ou a internet e tem ganhado as telas do cinema e o mercado editorial, com a enxurrada de biografias em exibição ou publicadas.
Na coletiva a qual reuniu os principais veículos da mídia potiguar, o brother Alexandre respondeu a todas as perguntas dos repórteres. Negou apenas o verdadeiro enigma da Esfinge da tragédia grega: para quem ele torce contra no Big Brother. Preferiu apenas afirmar seu voto de confiança, para a Ana Carolina, porque ‘‘ela está sendo ela mesma’’ no show da realidade televisiva. Alexandre falou ainda de combinações clandestinas de votos, que não estava preparado para participar do programa no ano passado e só este ano se inscreveu e do processo de seleção de 600 candidatos, a qual respondeu 20 questões, participou de quatro entrevistas eliminatórias, testes...
A coletiva ultrapassou os 15 minutos de fama para cada cidadão do futuro, vislumbrados na década de 60 pelo papa da pop art, Andy Warhol. O profeta beatnik foi preciso quando sequer excistiam photoshop, google earth ou câmeras de segurança. E riria hoje da própria previsão ao escutar do brother Alexandre: ‘Aqui fora sou mais reconhecido do que lá dentro’”.
PAPO CURTO
Diário de Natal - Quais motivos para tanto sucesso do Big Brother?
Alexandre - Aquilo é um jogo de conflitos e o ser humano é muito observador, preocupado com o que acontece com a vida dos outros. Acredito que assistem com esse interesse.
Qual experiência você tirou de lá?
Aprendi mais a respeitar o ser humano e a tentar entender a individualidade e os objetivos de cada pessoa.
Você assistiu ao filme O Show de Truman (1998)?
Não; acho que não.
No filme o protagonista nasce, cresce e vive sob uma redoma gigantesca de vidros a qual reproduz o seu mundo e está cercada de câmeras. Ele nem desconfia que está sendo filmado e visto por milhões de pessoas; que todos os seus amigos, trabalho e rotina é roiteirizado por um diretor de TV. Quando ele descobre, fica contrariado e procura fugir da redoma. Porque hoje, apenas dez anos depois, a conotação é outra e as pessoas procuram aparecer?
Pelo menos eu nunca pensei em fama ou em ser celebridade. Me inscrevi no BBB por causa do dinheiro, em ganhar o milhão. Até porque minha formação é outra. Não ganhei um milhão, mas ganhei outra coisa: hoje sou reconhecido. Não há lugar que eu vá que não me reconheçam. E também me apareceram muitas oportunidades; muitos projetos. Já fiz curso de teatro e estou agora estudando as melhores propostas; as que se enquadram melhor no meu perfil.
Esse mero administrador de empresa partícipe de programa desvinculado de qualquer conteúdo cultural relevante nunca havia de merecer espaço em caderno de cultura. Claro, há numeroso público leitor para tal matéria e penso que um registro de que o cara promoveu coletiva de imprensa; que está em Natal e coisas do tipo, valem até pelo conceito mercadológico do jornal-empresa e interesse do assinante. A questão é o espaço da matéria. Na minha opinião, não é a editoria cultura.
Pautado para tal, procurei dar um tom diferente ao assunto; aproximar da cultura que queremos ler: matérias críticas, analíticas, de conteúdo, mesmo de assunto vazio. Esse ponto não foi colocado na discussão. Tampouco a melhoria estética e de conteúdo do jornal, cada vez menos avesso aos releases e agora com projeto gráfico mais interessante. As criticadas colunas sociais foram embora e nada disseram. Preferiam as críticas enquanto existiam. Fizemos excelentes matérias nos últimos meses, fora do tal agendão. Ninguém deu um pio.
Falo de uma maneira geral, não só de Tácito, sempre atento e combatente com nosso jornalismo cultural, graças a Deus. As críticas são válidas e oportunas. Já instiguei a discussão pro assunto, que julgo mais interessante do que listas de livros e escritores, também bacana (listas são sempre prazerosas!). O jornalismo cultural brasileiro está em decadência faz tempo. E o do nosso RN carece ainda de estrutura. É quase inimaginável um ou dois repórteres de cultura por jornal, quando em jornais de estados vizinhos são mais de oito.
Semana passada ligaram de Recife pra Redação. Atendi e perguntaram qual repórter cobria música, como se houvesse, como há lá, um repórter para cada segmento cultural: especialistas em literatura, música, artes visuais, dança... Aqui sou apenas eu. Aliás, sem as colunas sociais, ganhamos mais um repórter, mas a carga de trabalho permaneceu ou até aumentou com mais páginas para preencher. Na Tribuna é a mesma coisa. E no JH o repórter até divide trabalho com a editoria de Cidades.
Cito até outro exemplo da dificuldade diária que passamos. Meu editor (vai ficar puto que tou escrevendo isso..rs) pediu para reescrever release da banda Tihuana, que toca amanhã em Natal. Argumentei que valia apenas uma nota no roteiro de fim de semana. Ele concordou e perguntou: “O que eu ponho no lugar?”. Fiquei sem ação, sem sugestão. As que tinha já havia sugerido e escrito. Analisem: o editor precisa pensar em quatro, cinco pautas por dia. E pior: o repórter tem que escrevê-las.
Não dá tempo, minha gente! Não há como escapar do agendão, que, concordemos, também vale como matéria. Praticamente todos os dias, sem almoçar, chego atrasado no meu outro trabalho, no expediente da tarde. Enfim... Feito meu desabafo, segue abaixo meu texto sobre o tal Alexandre, que propositalmente preferi sequer botar seu sobrenome. Foi o que deu pra fazer:
“Um dos integrantes da casa mais vigiada do Brasil está em Natal. Calma, nada da presença de José Sarney, Renan Calheiros ou Fernando Collor na aldeia de Poti. A mão boba no Planalto continua à solta. Os olhos atentos da grande massa de eleitores miram outras celebridades: as do Big Brother. E quem voltou a Natal sempre escancarada às novidades foi o administrador-brother-recifense Alexandre, 35 anos. Cercado por holofotes, pela falta de assunto e pelas carnes do restaurante Sal e Brasa, o big brother concedeu coletiva à imprensa no início da tarde de ontem.
Segundo informa o google, Alexandre mora em Parnamirim e trabalha em agência bancária em Natal. Ao ser indicado por três integrantes foi eliminado do programa com 49% dos votos no terceiro paredão. Foi o mais votado entre os anônimos/celebridades Maximiliano e Priscila. É classificado como sortudo em vários sites preocupados com biografias de celebridades por ter entrado no lugar de outro participante, poupado por problemas de saúde. Ainda segundo o repórter google, Alexandre ficou no ‘‘lado A’’, porém gerou conflitos com alguns participantes de seu grupo e foi indicado ao paredão.
Alexandre foi ‘‘eliminado’’ do show da vida global após três semanas de programa. Durante o período participou da casa vidraçada e expôs sua intimidade ao Brasil. Seguiu a moda do tempo-hoje. O sucesso do ‘‘reality show’’ (show da realidade?) é explicado também pelo advento da internet. Ferramentas como webcam, blogs e fotologs, youtube e orkut expõem o festival da vida privada a quem deseja fuçar. Anônimos em busca de comentários, visibilidade. Diferente dos diários íntimos de outrora, dos escritos secretos, introspectivos. A mania da exposição hoje já excede a mídia televisiva ou a internet e tem ganhado as telas do cinema e o mercado editorial, com a enxurrada de biografias em exibição ou publicadas.
Na coletiva a qual reuniu os principais veículos da mídia potiguar, o brother Alexandre respondeu a todas as perguntas dos repórteres. Negou apenas o verdadeiro enigma da Esfinge da tragédia grega: para quem ele torce contra no Big Brother. Preferiu apenas afirmar seu voto de confiança, para a Ana Carolina, porque ‘‘ela está sendo ela mesma’’ no show da realidade televisiva. Alexandre falou ainda de combinações clandestinas de votos, que não estava preparado para participar do programa no ano passado e só este ano se inscreveu e do processo de seleção de 600 candidatos, a qual respondeu 20 questões, participou de quatro entrevistas eliminatórias, testes...
A coletiva ultrapassou os 15 minutos de fama para cada cidadão do futuro, vislumbrados na década de 60 pelo papa da pop art, Andy Warhol. O profeta beatnik foi preciso quando sequer excistiam photoshop, google earth ou câmeras de segurança. E riria hoje da própria previsão ao escutar do brother Alexandre: ‘Aqui fora sou mais reconhecido do que lá dentro’”.
PAPO CURTO
Diário de Natal - Quais motivos para tanto sucesso do Big Brother?
Alexandre - Aquilo é um jogo de conflitos e o ser humano é muito observador, preocupado com o que acontece com a vida dos outros. Acredito que assistem com esse interesse.
Qual experiência você tirou de lá?
Aprendi mais a respeitar o ser humano e a tentar entender a individualidade e os objetivos de cada pessoa.
Você assistiu ao filme O Show de Truman (1998)?
Não; acho que não.
No filme o protagonista nasce, cresce e vive sob uma redoma gigantesca de vidros a qual reproduz o seu mundo e está cercada de câmeras. Ele nem desconfia que está sendo filmado e visto por milhões de pessoas; que todos os seus amigos, trabalho e rotina é roiteirizado por um diretor de TV. Quando ele descobre, fica contrariado e procura fugir da redoma. Porque hoje, apenas dez anos depois, a conotação é outra e as pessoas procuram aparecer?
Pelo menos eu nunca pensei em fama ou em ser celebridade. Me inscrevi no BBB por causa do dinheiro, em ganhar o milhão. Até porque minha formação é outra. Não ganhei um milhão, mas ganhei outra coisa: hoje sou reconhecido. Não há lugar que eu vá que não me reconheçam. E também me apareceram muitas oportunidades; muitos projetos. Já fiz curso de teatro e estou agora estudando as melhores propostas; as que se enquadram melhor no meu perfil.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Domingo na Praça mais próximo
O Domingo na Praça está mais próximo de voltar aos braços da populaça. A produtora do evento, Cida Campello, apresentou o projeto à Funcarte hoje e, segundo ela, foi muito bem recebido e elogiado. Os trâmites agora serão entre as insituições parceiras - Funcarte e UFRN - até o projeto ser entregue à borboletada prefeita. Populista como é, deve aceitar o projeto já aclamado pelo povo. Cida me disse que acredita numa resposta, afirmativa ou negativa da Funcarte na próxima semana. Vamos esperar.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Radiohead, por Rodrigo Levino
Mário Ivo há de me perdoar. Roubo-lhe o texto publicado em seu blog Embrulhando Peixe, do escritor-cronista Rodrigo Levino a respeito do show, ao que parece, antológico do Radiohead, no Just Fest. As palavras de Levino são primorosas. Crítica de quem sabe o que diz e o que viu. Texto enxuto, para poucos. Do mesmo show li texto publicado na Tribuna, de Issac, também muito bom. O "infiliz" de Alex de Souza é que incitou a inveja alheia (rs) e quase nada escreveu a respeito. No site Digestivo Cultural encontrei algumas palavras pobres do jornalista Julio Daio Borges, sobre o tema.
Melho o de Levino:
RADIOHEAD; ZEITGEIST
Antes de mais nada: se algo dentro da cultura pop deste início de século tiver de ser escolhido para representar o zeitgeist, ou coisa que resuma em si o espírito do nosso tempo, não há nada que o faça melhor do que o Radiohead. A claustrofobia da modernidade, a vertigem, a depressão e tudo que o existencialismo tentou traduzir em teses e simpósios, a banda inglesa foi capaz de emular de maneira não exatamente acessível, mas usando certamente um instrumento de diluição mais palatável, no caso a música. E diga-se, com louvor.
A espera de quinze anos, sete discos, um show do Los Hermanos e outro do Kraftwerk na abertura, por si só justificaria a ansiedade visível das trinta mil pessoas que se acotovelaram para assistir o concerto da banda em São Paulo. Mas , o Radiohead é maior do que isso. Primeiro por não se tratar de um simples concerto, e sim um combo de soluções estéticas, tanto do ponto de vista cenográfico quanto musical, capaz de transformar a apresentação numa experiência sensorial.
A tal experiência, no entanto, era uma mera suspeita até que duas horas e meia e 26 músicas depois, a certeza de que se estava diante da maior e mais importante banda pop em atividade tornou-se límpida e sem atropelos, como a voz de Thom Yorke, mesmo enquanto se debate na sua dança frenética.
O Radiohead é sui generis. O caminho traçado pela banda, até hoje, difere do rock de arena do U2, discorda da melodia fácil dos Smiths, aprofunda a reflexão que apesar de sincera era superficial no Nirvana, recria alicerçado no rock progressivo do Pink Floyd, renova o pioneirismo dos alemães do Kraftwerk e assume influências de composições eruditas para restar numa moldura de autenticidade, peso, perfeita execução, empatia e lufadas de genialidade recaindo particularmente sobre o guitarrista Johnny Greenwood.
O que a banda fez, desde o histórico disco OK Computer, foi arriscar-se num universo onde não existem melodias fáceis nem refrões radiofônicos, mas o faz de maneira tão competente que ao iniciar o espetáculo com a sequência devastadora de “15 steps”, “There there” e “The national anthem”, dos respectivos discos In Rainbows, Hail to the Thief e Kid A, tinha a platéia diante de si ganha, imersa na profusão de harmonias quebradas, letras desesperadas e efeitos sonoros hipnotizantes.
Sabendo dos limites que podia atingir, sem ser cobrado pelo público das tais coisas fáceis de serem ouvidas, a banda pontuou o repertório depois de “Karma Police” e “Paranoid Android” - entoada pela platéia em peso, mesmo quando se havia encerrado a execução, forçando os músicos a continuarem tocando - por escolhas lentas e esmeradas, que foram de “The Gloaming”, do Hail to the Thief ao b-side “Talk show host”, passando por “Faust Arp” e “Exit music”, dos discos Hail to the Thief e OK Computer.
A partir daí a relação público-banda estendeu-se a uma cumplicidade tal que fez o grupo retornar por impressionantes três vezes ao palco, para destilar os ecos do passado melódico do disco The Bends, com “Fake plastic tree”, o experimentalismo do Amnesiac, com “You and whose army”, deixar no ar uma saída definitiva com “Everything in its right place”, para arrebatar corações e mentes com a música que os revelou ao grande público, “Creep”, do disco Pablo Honey. Era, então, um final apoteótico que resumia com um set list coeso e poderoso, a agonia e o êxtase do mundo tal qual o conhecemos, na melhor representação que a cultura pop atual é capaz de executar.
Los Hermanos
É muito provável que o show do grupo carioca, que abriu o festival, tenha sido mesmo o último da carreira, depois de dois anos de hiato. A falta de empatia entre os líderes Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante era tão visível que dava a impressão de os 200 mil reais que ganharam pelos dois shows, no RJ e em SP, não valiam a pena para se aturarem novamente.
Kraftwerk
Os pais da música eletrônica fizeram um show burocrático, com repertório previsível que foi de “Man machine” a “Autoban”, passando por “Tour de France”. Ficou, apesar da respeitabilidade e dos recursos visuais, a impressão de não ser uma banda para shows abertos.
País Tropical
Na seleta lista de convidados especiais do Radiohead, e que a organização do show escondeu a sete chaves, figurava o mais assediado pela banda: Jorge Ben Jor. Ed O’brian, guitarrista, é reconhecidamente fanático pelo cantor e compositor brasileiro.
Caos
Uma coisa precisa ser separada da outra: se o show do Radiohead foi algo antológico, a organização do festival Just a Fest, a cargo da PlanMusic, foi de um amadorismo atroz. O local do show além de distante, lembrava a estrutura da Arena do Imirá. Ou seja, um buraco puro e simples, não fossem as árvores e resquícios de grama.
Caos II
Ao menos sinal de chuva, a tal Chácara do Jockey Club ameaçava se transformar num lamaçal. Não bastasse o acesso dificultado, o estacionamento do evento cobrou extorsivos 35 reais, que não foram capazes de deixar nenhum veículo em segurança. 70 foram arrombados.
Caos III
Ao fim do show, já segunda-feira, quase uma da manhã, a saída das trinta mil pessoas foi penosa. Por um só caminho, estreito e acidentado, dezenas delas passaram mal e demoraram quase meia hora para deixar o local do show. Um horror.
Caos IV
Taxistas, aproveitando-se da distância e da falta de ônibus, chegavam a cobrar 150 reais por uma corrida que em condições normais não passaria de trinta mangos. Nesse ponto os profissionais paulistanos se igualaram aos cariocas, reconhecidos pela habitual “malandragem”.
Melho o de Levino:
RADIOHEAD; ZEITGEIST
Antes de mais nada: se algo dentro da cultura pop deste início de século tiver de ser escolhido para representar o zeitgeist, ou coisa que resuma em si o espírito do nosso tempo, não há nada que o faça melhor do que o Radiohead. A claustrofobia da modernidade, a vertigem, a depressão e tudo que o existencialismo tentou traduzir em teses e simpósios, a banda inglesa foi capaz de emular de maneira não exatamente acessível, mas usando certamente um instrumento de diluição mais palatável, no caso a música. E diga-se, com louvor.
A espera de quinze anos, sete discos, um show do Los Hermanos e outro do Kraftwerk na abertura, por si só justificaria a ansiedade visível das trinta mil pessoas que se acotovelaram para assistir o concerto da banda em São Paulo. Mas , o Radiohead é maior do que isso. Primeiro por não se tratar de um simples concerto, e sim um combo de soluções estéticas, tanto do ponto de vista cenográfico quanto musical, capaz de transformar a apresentação numa experiência sensorial.
A tal experiência, no entanto, era uma mera suspeita até que duas horas e meia e 26 músicas depois, a certeza de que se estava diante da maior e mais importante banda pop em atividade tornou-se límpida e sem atropelos, como a voz de Thom Yorke, mesmo enquanto se debate na sua dança frenética.
O Radiohead é sui generis. O caminho traçado pela banda, até hoje, difere do rock de arena do U2, discorda da melodia fácil dos Smiths, aprofunda a reflexão que apesar de sincera era superficial no Nirvana, recria alicerçado no rock progressivo do Pink Floyd, renova o pioneirismo dos alemães do Kraftwerk e assume influências de composições eruditas para restar numa moldura de autenticidade, peso, perfeita execução, empatia e lufadas de genialidade recaindo particularmente sobre o guitarrista Johnny Greenwood.
O que a banda fez, desde o histórico disco OK Computer, foi arriscar-se num universo onde não existem melodias fáceis nem refrões radiofônicos, mas o faz de maneira tão competente que ao iniciar o espetáculo com a sequência devastadora de “15 steps”, “There there” e “The national anthem”, dos respectivos discos In Rainbows, Hail to the Thief e Kid A, tinha a platéia diante de si ganha, imersa na profusão de harmonias quebradas, letras desesperadas e efeitos sonoros hipnotizantes.
Sabendo dos limites que podia atingir, sem ser cobrado pelo público das tais coisas fáceis de serem ouvidas, a banda pontuou o repertório depois de “Karma Police” e “Paranoid Android” - entoada pela platéia em peso, mesmo quando se havia encerrado a execução, forçando os músicos a continuarem tocando - por escolhas lentas e esmeradas, que foram de “The Gloaming”, do Hail to the Thief ao b-side “Talk show host”, passando por “Faust Arp” e “Exit music”, dos discos Hail to the Thief e OK Computer.
A partir daí a relação público-banda estendeu-se a uma cumplicidade tal que fez o grupo retornar por impressionantes três vezes ao palco, para destilar os ecos do passado melódico do disco The Bends, com “Fake plastic tree”, o experimentalismo do Amnesiac, com “You and whose army”, deixar no ar uma saída definitiva com “Everything in its right place”, para arrebatar corações e mentes com a música que os revelou ao grande público, “Creep”, do disco Pablo Honey. Era, então, um final apoteótico que resumia com um set list coeso e poderoso, a agonia e o êxtase do mundo tal qual o conhecemos, na melhor representação que a cultura pop atual é capaz de executar.
Los Hermanos
É muito provável que o show do grupo carioca, que abriu o festival, tenha sido mesmo o último da carreira, depois de dois anos de hiato. A falta de empatia entre os líderes Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante era tão visível que dava a impressão de os 200 mil reais que ganharam pelos dois shows, no RJ e em SP, não valiam a pena para se aturarem novamente.
Kraftwerk
Os pais da música eletrônica fizeram um show burocrático, com repertório previsível que foi de “Man machine” a “Autoban”, passando por “Tour de France”. Ficou, apesar da respeitabilidade e dos recursos visuais, a impressão de não ser uma banda para shows abertos.
País Tropical
Na seleta lista de convidados especiais do Radiohead, e que a organização do show escondeu a sete chaves, figurava o mais assediado pela banda: Jorge Ben Jor. Ed O’brian, guitarrista, é reconhecidamente fanático pelo cantor e compositor brasileiro.
Caos
Uma coisa precisa ser separada da outra: se o show do Radiohead foi algo antológico, a organização do festival Just a Fest, a cargo da PlanMusic, foi de um amadorismo atroz. O local do show além de distante, lembrava a estrutura da Arena do Imirá. Ou seja, um buraco puro e simples, não fossem as árvores e resquícios de grama.
Caos II
Ao menos sinal de chuva, a tal Chácara do Jockey Club ameaçava se transformar num lamaçal. Não bastasse o acesso dificultado, o estacionamento do evento cobrou extorsivos 35 reais, que não foram capazes de deixar nenhum veículo em segurança. 70 foram arrombados.
Caos III
Ao fim do show, já segunda-feira, quase uma da manhã, a saída das trinta mil pessoas foi penosa. Por um só caminho, estreito e acidentado, dezenas delas passaram mal e demoraram quase meia hora para deixar o local do show. Um horror.
Caos IV
Taxistas, aproveitando-se da distância e da falta de ônibus, chegavam a cobrar 150 reais por uma corrida que em condições normais não passaria de trinta mangos. Nesse ponto os profissionais paulistanos se igualaram aos cariocas, reconhecidos pela habitual “malandragem”.
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