Poucas vezes assisti um diálogo tão bonito e filosófico num filme como o travado entre dois personagens do clássico Morte em Veneza, do italiano Lucchino Visconti. O filme é inspirado no original de Thomas Mann. Não é uma adaptação. Há diferenças relevantes de criação, como a transformação do escritor de Mann, em músico (Gustav Aschenbach), para intencionar a aproximação com o compositor Mahler.
Gustav viaja para Veneza buscando descanso em meio a uma crise existencial. Não encontra a paz procurada. Ele se apaixona por um belo garoto adolescente, Tadzio. A beleza do rapaz ao mesmo tempo atrai e oprime o compositor. Esse fascínio pelo belo, a busca do sublime e do perfeito se contrapõe à epidemia que ataca a cidade, à pobreza que o cerca, a tudo que se afasta dos ideais estéticos. E Gustav sente-se mais incompatível com o mundo, acentuando sua crise.
É dos melhores filmes que já vi. A temática do diálogo magistral a que me referi é a arte, a beleza e a música, em suas subjetividades e segredos. É coisa pra pensar e admirar. E comento apenas desta conversa; de alguns minutos do filme, que é de uma beleza quase indescritível: a história de um amor intenso sem troca afetiva, se esfacelando ante o mais banal. Acaba por um conto meio trágico, de um tema tão sublime para um resultado tão horrendo. Comento mais sobre o filme depois. Valem a pena algumas palavras. Por hora, o trecho referido:
Num quarto de hotel...
Gustav - Às vezes penso que os artistas são caçadores que miram no escuro. Nem sabem qual é seu alvo, tampouco se o atingiram. Mas não se pode esperar que a vida ilumine o alvo e estabilize sua mira. A criação da beleza e da pureza é um ato espiritual.
Alfred - Não, Gustav. Não! A beleza pertence aos sentidos. Não é possível alcançar o espírito.
Gustav - Não é possível alcançar o espírito através dos sonhos. Não é possível. É somente através do absoluto controle dos sentidos que se pode, algum dia, alcançar sabedoria, verdade e dignidade humana.
Alfred - Sabedoria? Dignidade? Para que servem? O gênio é uma dádiva divina. Não! Uma aflição divina. Uma chama breve e pecaminosa de dons naturais.
Gustav - Rejeito as virtudes demoníacas da arte.
Alfred – E isso é um erro! É o alimento da genialidade.
Gustav – Sabe, Alfred, a arte é a fonte mais elevada de educação. E o artista tem que ser exemplar. Deve ser um modelo de equilíbrio e força. Ele não pode ser ambíguo.
Alfred – Mas a arte é ambígua. E a música é a mais ambígua de todas as artes. É a ambigüidade transformada em ciência. Espere! (e se dirige ao piano). Ouça este acorde (um tom vibrante) ou então este (tom diminuído, mais fúnebre). Pode interpretá-los como desejar. Temos diante de nós uma série completa de combinações matemáticas, insuspeitadas e inesgotáveis. Um paraíso de duplos sentidos com os quais você, mais do que ninguém diverte-se ruidosa e confortavelmente (toca a introdução de uma música). Consegue ouvir? Reconhece?
Gustav – Pare!
Alfred – É sua! É uma música de sua autoria!
HORÁRIO NOBRE DA LEITURA
1ª DIREC SEEC RN
ESCRITORA CONVIDADA JANIA SOUZA
Revela talentos das artes
Foram três horários de auditório lotado com estud...
Há 10 horas
"Morte em Veneza" é um belo filme, meu caro. E o diálogo destacado por você de fato é de grande boniteza. Abraços.
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