Jornalismo e Literatura são irmãos briguentos unidos pelo amor da irmandade. Convivem em mesma casa e têm uma mesma mãe chamada Escrita, casada com um senhor às vezes chato, pedante e cheio de regras, mas também um homem de boa índole quando bem tratado, é o senhor Texto. A Literatura, filha mais velha, costuma ensinar seus dotes artísticos ao irmão mais novo. E o Jornalismo é astuto, perspicaz; capta os fatos no ar. São irmãos inteligentes. E o destino os fez famosos. Tanto que mereceram uma mesa de discussão no Enconro Natalense de Escritores (Ene) entre renomados convidados para debater a importância e o centro de convergência de cada um.
O escritor, contista e diretor da revista literária Bravo!, João Gabriel de Lima foi preconceituoso ao seu modo com a Literatura. Segundo João Gabriel, a Literatura é mentirosa, é o “império da imaginação”. Já o Jornalismo é mais analítico. Mas para o diretor da Bravo!, algo em comum há entre os dois – uma herança genética, talvez: “Escrever é guardar registros para o futuro”. E de alguma forma, mostrou empatia e intimidade com os dois irmãos, filhos de dona Escrita e seo Texto: “Sou mais repórter e, de alguma forma esse lado está presente na minha literatura”.
Claro, ninguém é dono da verdade; nem da mentira, para se adequar às opiniões dos convidados. A unanimidade é burra, já dizia o autor de O idiota da Objetividade, Nelson Rodrigues. O convidado da mesa seguinte, Carlos Heitor Cony, por exemplo, foi categórico na sua definição de literato: “Todo escritor tem de ser telúrico”, embora concorde que a literatura nordestina, a qual tanto ressaltou, seja mais humana. E pela inspiração oceânica e verdadeira de Camões ou para defender a similaridade entre os irmãos, ou mesmo a verdade da literatura, resolvi provocar o diretor da Bravo!:
JOÃO GABRIEL DE LIMA
Qual a grande mentira do jornalismo e a grande verdade da literatura?
(risos) A pergunta é complexa, mas vamos lá. O jornalismo parte de fatos; de coisas que realmente aconteceram. Quando você escreve, não pode mentir. Mas o jornalismo de hoje é cada vez mais analítico. Se pega um fato e a partir dele se faz uma análise. Isso ocorre de forma explícita ou não. Mas só a maneira de você organizar as informações a partir de uma regra ou uma escolha já se tem uma idéia. Toda reportagem tem uma idéia. E a grande mentira do jornalismo é o leitor achar a reportagem uma verdade absoluta e não uma idéia da qual ele pode concordar ou discordar. Mas acho que hoje o leitor é muito crítico. Ele sabe que aquilo que o jornalista defende através do fato é uma opinião, uma visão do profissional. Isso não quer dizer que o jornalismo não seja factual. Ele é, mas o jornalismo sempre defende uma idéia. O jornalista dialoga com o leitor, que lê e aceita ou não aceita. Isso está mais explícito hoje. Tudo que eu escrevo na Bravo!, o leitor pode entrar no site e deixar sua opinião, se concorda ou não. Então, acho que a maior mentira é quando não se aceita o jornalismo como diálogo e sim como uma verdade absoluta, que não é.
E a grande verdade da literatura?
Olha, acho que a literatura busca um pouco a verdade do personagem. Então, o personagem pode estar delirando, mas aquilo é verdadeiro. A voz literária é a verdade do personagem.
Nesse contexto, a Bravo é mais mentirosa ou verdadeira?
A Bravo! é extremamente verdadeira no sentido de que temos total rigor factual. Tudo o que a gente fala na revista é checado. Mas dentro desse rigor de informação tentamos ter visões cada vez mais autorais. Até por ser uma revista. Quando chegamos às bancas, os jornais já passaram, a televisão já noticiou. Quando o cara pega a Bravo!, ele já sabe o que acham quase todos os críticos a respeito do filme da Portela, mas ele quer uma voz autoral, então ele vai ler o cara que mostra aquele universo de uma maneira pessoal, sem falsear. Temos a verdade, mas uma verdade cada vez mais autoral. Falo até um pouco sobre isso no próximo editorial da revista.
A meia-verdade entre as mentiras e verdades do jornalismo e da literatura está na crônica?
Acho a crônica um gênero literário porque o factual ali é pouco importante; é muito pequeno para o jornalismo. Você pega uma crônica do Rubem Braga e o factual dele é ele olhando a praia. Então isso é literatura. Pra mim não interessa saber que o Rubem Braga olhou a praia. Pra mim interessa como ele olhou e o que ele escreveu.
Já que a Bravo! tem feito listas de 100 melhores em diferentes gêneros culturais, a Bravo estaria em qual posição entre as 100 melhores revistas culturais do país?
(risos) A modéstia me impede de responder a esta pergunta.
Conhece as revistas culturais produzidas no Rio Grande do Norte, como Preá, Brouhaha e Papangu?
Gostaria muito de conhecer. A única revista literária que conheço do Nordeste é a Continente, que era do Homero Fonseca, coisa que eu leio e admiro há muito tempo. A gente vinha conversando na van e eu tinha muita curiosidade em saber como ela é produzida; esse equilíbrio que eles conseguem abordar entre o regional e o mundo. A Bravo! pertence à editora Abril: uma editora grande. Mas mesmo dentro de uma editora grande a gente vê a batalha que é produzir uma revista cultural. Não é um produto de grande vendagem, que fatura muita grana. Então, respeito muito quem faz.
FIART no Centro de Convenções, Stand SPVARN
Coordenação da Presidente SPVARN, escritora poeta Adélia Costa, sentada ao
lado do escritor Alexsandro Al...
Há um dia
Valeu, Sérgio! Pensei que o cara fosse um desses paulistas chatos, mas parece que não. Contra a parede, saiu-se muito bem. Vamos às próximas entrevistas! à propósito: entrevistas verdadeiras ou mentirosas? Abraço
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