O respeitável público pagão assistiu no último sábado um relâmpago de otimismo, poesia e magia. E nem precisou assistir tudo da pedra mais alta. O teatro do hotel Vila do Mar foi o palco ou a lona imaginária de um circo musical revolucionário. A trupe paulista do Teatro Mágico é renovação de um desejo de vida apagado neste novo século ou nas últimas décadas. É música alternativa, opinativa e sugestiva. E a pedida é pintar a cara em tons alegres de vida para despertar a fantasia e fazer dormir o medo.
O letrista, cantor e violonista Fernando Anitelli se mostra o Renato Russo dos novos tempos. Menos pop. Mais didático. É um porta-voz de uma juventude antenada e antes de tudo desejosa de mudança; de esperança e revolução. A poesia do Teatro Mágico dispensa o otimismo barato e hipócrita, ou a mídia massificante. Ela é realista com as dores do mundo e sugere escapatórias por um caminho mais ameno: o da poesia musical; da magia circense; da fantasia não-alienada e torpe. É a proposta de um novo vislumbre de encantamentos.
Anitelli é demasiado realista quando diz que “o dia mente a cor da noite. O diamante, a cor dos olhos. E os olhos mentem dia e noite a dor da gente”. E mostra a estrada para fugir das mentiras cotidianas do dia e da noite: “Metade de mim agora é assim: de um lado a poesia, o verbo e a saudade. Do outro, a luta, a força e a coragem para chegar no fim. E o fim é belo incerto. Depende de como você vê o novo, o credo, a fé que você deposita em você, e só”. Mas essas são citações escolhidas por este jornalista parcial. Anitelli também descreve o Teatro Mágico:
“O Teatro Mágico é o teatro do nosso interior; a história que contamos todos os dias e ainda não nos demos conta; as escolhas que fazemos em busca dos melhores atos, dos melhores sabores, das melhores melodias e dos melhores personagens que nos compõem; as peças que encenamos e aquelas que nos encerram. Nosso roteiro imaginário é a maneira improvisada de viver a vida; de sobreviver a vida, de ressaltar os tombos e relançar as idéias: o teatro nosso de cada dia”.
O título da canção com esses dizeres é “O Teatro Mágico entrada para raros”. E os raros são soldados de chumbo e bailarinas de brilho nos olhos. Diferente de expressões em transe dos espantalhos, corrompidos pelo exagero-pop da massa, de sonhos roubados e falsas alegrias. Os da geração anos 70 talvez entendam o que escrevo. Eles viveram as raízes das delícias e horrores deste novo século. Alguns deles estiveram no show. De certo viram naquela vitamina musical um recomeço; uma nova tentativa experimental mais madura e consequente.
A geração anos 70 quis evitar a intermediação. Eles experimentaram um abandono completo e assumiram a captura do momento fugaz de forma intensa. Não tinham a intenção de transformação ou revolução. Não eram experiências para serem lavradas em atas ou livros de história. Eram para serem carregadas no mais fundo da alma. “Não, não é uma estrada, é uma viagem”, cantavam os Mutantes. E o Teatro Mágico é isso: uma proposta democrática de aceitação a um mundo mais leve, “sem deixar que a vida escorregue”.
A solidão e o amor em cena
A platéia soube entender cada sílaba de poesia; cada expressão mambembe e o todo ideológico do grupo. A interação foi completa. Um folheto com um texto intitulado Hino aos raros foi distribuído antes do show para uma surpresa à trupe no meio da apresentação. Após a canção De ontem em diante, o público, em uníssono, leu os dizeres do folheto: um verdadeiro tratado positivista e de apologia à uma revolução libertadora. Os integrantes, vestidos de clows, ficaram desarmados. Colocaram as mãos para trás e ouviram emocionados. Um deles botou as duas mãos na cabeça, meio sem acreditar:
“... O dia do prato, o dia do raro. Junte tudo numa coisa só! O agora é a hora. E da pedra mais alta, nós vamos pular. E voar! Solte a prosa presa. Revele a criança, revele a surpresa. Abram alas, palhaços e princesas de palavras e sonhos à beira-mar. O Teatro Mágico é hoje potiguar, e só enquanto eu respirar”. A resposta de Anitelli resumiu a empatia de artista e público: “A gente se merece!”. Aliás, um espaço mais aberto e democrático seria palco mais adequado para um grupo que mistura teatro de rua e performances circenses, do que um teatro de um hotel, mesmo de acústica perfeita. Muitos fugiram das cadeiras e se amontoaram nas laterais abertas para soltar “a prosa presa”, recheada de vontade e contestação.
Sequer o atraso de mais de uma hora e a desorganização nas filas de entrada foram desanimadores. Alguns da terceira idade se chatearam mais, enquanto adolescentes e jovens com nariz de palhaço esperavam ansiosos o início do espetáculo e as tradicionais palavras prefaciais: “Sem horas e sem dores, respeitável público pagão, bem vindo ao Teatro Mágico! Sintaxe à vontade...”. E assim, brincando com as palavras, a trupe intercalou sucessos, traçados tecnológicos de ruídos telefônicos, mensagens de voz, malabarismos, pirofagia e outros truques.
As vestes de palhaço, de clows, levam a idéia do “personagem interno” escondido em cada um de nós. E se o Teatro Mágico é um pouco a história que contamos todos os dias ou a nossa maneira improvisada de viver a vida, é também um espelho das ausências cotidianas. O individualismo é também solidão. E a solidão é morada para a angústia e a reflexão: sentimentos da coletividade generalizada. O diferencial do Teatro Mágico é a sobra do amor; de um amor como porta-estandarte da alegoria da vida; é o amor fraterno, terno; o amor entre dois, entre quatro, entre 500.
E cantar a solidão nossa é cantar o presente. Cantar o amor é cantar revolução, transformação. Talvez por isso o Teatro Mágico seja poesia ultra-moderna, posto que futurista. A única revolução possível para os novos tempos é a do amor como solução para o individualismo, o medo e o banal. Para essa cura, boas doses de circo, teatro e cultura da poesia e da música. E, claro, a união. Ora, se o sol de cada um é solidão, porque não se junta tudo numa coisa só? Afinal, “os opostos se distraem e os dispostos se atraem”.
FIART no Centro de Convenções, Stand SPVARN
Coordenação da Presidente SPVARN, escritora poeta Adélia Costa, sentada ao
lado do escritor Alexsandro Al...
Há 18 horas
Fala grande Lee lewis, blog novo? Isso é motivo pra tomar uma (como faz um tempão q a gente não faz isso qq coisa é motivo :)
ResponderExcluirJá botei nos favoritos. A gente se comunica esses dias. Abração