Obra literária e produção cinematográfica são analisadas à luz da história e da ciência social
Se a arte imita a vida, a resposta pode ser analisada sob diferentes ângulos, visões e manifestações artísticas. De certo, o cinema e a literatura são representações contemporâneas, retratos de suas épocas. Para o historiador e cientista social Marcos Silva – organizador do livro Metamorfoses das Linguagens (Histórias, Cinemas, Literaturas) –, a arte não imita a vida, mas enxerga nuances invisíveis ao cotidiano. A obra lançada hoje na Livraria Siciliano (Midway), a partir das 19h, procura explicar as temporalidades entre literatura e cinema sob a ótica de diferentes manifestações artísticas e contextualizações históricas. São textos de autorias humanistas diferentes na tentativa útil de explicar as interferências da obra cinematográfica – e o livro de origem – no mundo e a conseqüente troca de “favores” entre eles.
Entrevista – Marcos Silva
De que forma o livro tenta explicar a dicotomia entre cinema e literatura sob as bases sólidas da história?
O livro é uma coletânea. Cada colaborador analisa um filme baseado em uma obra literária, a transformação sofrida entre as duas linguagens. É habitual o leitor desejar a fidelização da obra literária na tela de cinema. Sabemos que há linguagem própria para cada uma e, às vezes, momentos históricos diferentes. Morte em Veneza, por exemplo: a novela (de Thomas Mann) foi escrita antes da 1ª Grande Guerra. Traz o aspecto do mundo em crise, se dirigindo à guerra. Já o filme (pelo diretor Lucchino Visconti), produzido em 1970, é lançado após as duas guerras mundiais. Traz um mundo modificado e prega outras coisas. Já Vidas Secas é um filme mais fiel ao livro, mas também de linguagem própria. Perceba que em uma cena há o som de um carro de boi sem que haja o carro de boi, apenas para metaforizar a situação animalesca vivida pelos personagens. Em um livro, isso nunca funcionaria.
De que forma a arte, seja na literatura ou no cinema, interfere no mundo? No caso de Morte em Veneza, por exemplo...
Interfere refletindo o momento. A cidade descrita pela novela vive a Belle Époque, a confiança no progresso, na ciência. Mostra o esplendor, mas apresenta também o perigo rondando com a iminência da eclosão da 1ª Guerra Mundial. Não é à toa, o filme se passa em Veneza – uma cidade belíssima, mas construída sobre o mangue e com a peste se instaurando, ou seja: um mundo belo, mas em perigo. Quando o filme foi produzido em 1970, as duas guerras haviam passado. Penso que o filme revisita a advertência de que o mundo continua em perigo. O filme fala do passado, enquanto a novela retrata o presente. Tanto a novela quanto o filme possuem historicidade própria e interferem no mundo à sua própria maneira. O romance Vidas Secas (Graciliano Ramos) fala da extrema pobreza rural, que em 1938 era maioria. O filme, de 1960, falava da mesma exploração da pobreza, embora a população fosse em maioria urbana.
O diretor transferiu a época e manteve a essência...
Em Blow-Up (filme de Antonioni baseado no conto de Julio Cortazar) é ambientado originalmente em Paris, a então cidade da Belle Époque, de vanguarda. Mas o diretor transferiu as filmagens para Londres, que em 1966 representava o novo, o grande centro da moda, das modelos lindíssimas, das primeiras mini-saias, mas da sociedade com grande dificuldade de comunicabilidade. Por um lado, a vanguarda, a beleza. Por outro, a dificuldade de se entender. É uma beleza vazia, sem sentido. Então, o diretor se vale de liberdades poéticas e artísticas. Não para ser infiel à obra literária, mas pela necessidade do fazer artístico.
E com qual intensidade e alcance essa arte interfere no mundo?
A maior parte da população tem pouco acesso à alta arte. O cinema é caro e isso representa uma grande barreira. Claro, a educação pode ajudar nisso. Mas as pessoas que consomem grandes filmes, romances, poesias são mais sensíveis, têm mais facilidade de entendimento do mundo e são mais capazes de fazer escolhas.
Houve outro critério para escolha dos filmes analisados afora o da referência literária?
Os critérios foram livres. O livro nasceu a partir de debates organizados por mim no Sesc Pompéia, em São Paulo. Cada convidado escolhia um filme e comentava a respeito. Dessa forma, o livro é marcado pela diversidade. Há filmes brasileiros, hispano-brasileiro, norte-americanos, russo, japonês, francês, ítalo-britânico e uruguaio. Esses filmes são diálogos entre seus diretores e os escritores nos quais se inspiraram: Yakov Protazanov/Aleksei Tolstoi, John Ford/John Steinbeck, Orson Welles/Franz Kafka, Nelson Pereira dos Santos/Graciliano Ramos, Glauber Rocha/Regionalismo Literário Nordestino, entre outros.
Metamorfoses das Linguagens (histórias, cinemas, literaturas)
Coquetel de Lançamento
Data e horário: Hoje, a partir das 19h
Local: Livraria Siciliano (3º piso do Shopping Midway)
* O evento contará com apresentação de músicas de filmes relacionados a textos literários (vozes de Marcos Silva e violão de Paulo Marcelo).
FIART no Centro de Convenções, Stand SPVARN
Coordenação da Presidente SPVARN, escritora poeta Adélia Costa, sentada ao
lado do escritor Alexsandro Al...
Há 19 horas
olha,sérgio, viisito o teu blogue há algum tempo e, claro, não preciso dizer que gosto de suas postagens e tudo mais. esse,
ResponderExcluirno entanto, é o primeiro comentário que faço aqui. diz respeito a uma entrvista de marcos silva falando de intelectuais,postada na última edição. o consagrado professor
erra quando coloca intelectual e
artista no mesmo balaio. acho que tirando um Da Vinci (artista, intelectal ou cientista ?) uma distinção se mostra clara. rousseau,o grande naífe, poderia ser visto como um intelectual ?
o professor marcos silva é um intelectal ou artista ? caetano veloso, nei leandro de castro,marize castro, franklin jorge, zila mamede,ferreira itajubáitajubá,
portinari,volonté o que são?