quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Vida Vadia, por Denise Araújo


Por Denise Araújo

Vida Vadia

Embalada por O mundo é um moinho, de Cartola

"Te avisei que a vida é um vôo". A mãe sempre repetia isso. Queria alertar que a vida é curta. Mas embora sabendo que qualquer situação de desgaste é passageira, ela teve que sair de casa cedo. Sem certezas. Sem planos. Estava fatigada do pai, que a abusava. Procurava-a todo dia, toda hora. A infância passou rápida e suja. A adolescência veio como num porre, com gargalos de garrafa e bitucas de cigarro atiradas a esmo. O som era o de uma seresta mal arranjada. As horas perdiam em cor, até que veio o vácuo, quando ela desapercebeu qualquer céu, qualquer chão, então realmente foi chegada a hora de abandonar aquela casa de alvenaria. Pura miséria.

Depois da resolução, pouca coisa a amedronta. Não teme ruas vazias ou vielas escuras, pois ela também é o submundo. A vida na zona não é tão diferente da que levava com a família: privação, violência, abandono. E foi numa noite dessas que a música mudou. Foi quando no carro de mais um homem ela ouviu uma melodia diferente. Apesar da pouca embriaguez, pôde escutar: "Em cada esquina cai um pouco a tua vida/ e em pouco tempo não serás mais o que és". Estarreceu. As músicas frívolas do seu dia a dia não consternavam aquela vida sem vida, aquela vida tão sua.

Quem nasceu na vala encara diferente todos os valores sociais. Qualquer alegria é festa. Qualquer vantagem é arrombo. Qualquer maleita é algo já sentido. Quem vem de baixo pode conformar-se com tudo. Pode também soterrar os poucos restos que restam, basta sonhar. Por isso ela não entende sonhos. Não sente saudades do passado nem espera alegre o futuro. Nada a escandaliza, nem ela mesma. Se é o corpo que prostitui, mais fácil a limpeza. Sabe que o movimento é inverso: o que ela faz não é desconcertante para a sociedade, o meio foi que a desconcertou. Sem nenhuma vida boa. Sem farsas aos de casa. Sem sorrisos aos cretinos. Sem o garbo que a grana solta traz. Sem nada. Só o aroma chinfrim da colônia tipo Patchouli a permeia.

Dizem que os corpos nunca esquecem que um dia se pertenceram. Isso para ela é mentira, pois só lembra que aquele homem era alto, tinha no toque das mãos o peso da surra e cheirava a mosto. Aquele mesmo do carro. Aquele da música que a fez chorar, pois resta-lhe esta falha nos nervos. São fracos, por isso a emoção vem fácil. Ao perguntar pela música ao homem, quase nada ouviu. Apenas balbúcios. Algo como Cartola. Algo como samba. Cantado devagar, preguiçoso. Com uma tristeza muito simpática. Nunca ouviu uma canção tão chorada, e uma admoestação cantada com tanta doçura. Nada no mundo vence a beleza daquele samba, pois naqueles minutos ela foi quase feliz. Sentiu-se levitar. Era agora passarinheira. Em mais um programa casual ela quase apagou. O samba bonito a deu vertigem. É ela que agora agoniza.

"Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida..."


Sinto que minha vida ainda não começou. Há pouco ainda retirava as cascas das baratas nas duas meias do meu pai. Na falta de lugar, guardava-as em cima de uma taba. O solerte me expelia e me precisava. Em minha boca, o cuspe enojado era constante. Alguns acham que ainda tenho quinze anos.

"...Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar..."


É só na miséria e na indigência que as relações verdadeiras aparecem. Ontem, minha família fazia em mim o serviço do verme atinente aos vermes do cadáver fresco. Corroía, doía. Hoje, alguns acham que eu tenho AIDS; outros, porfíria; os demais, os dois. Tanto faz. Entre mim e o outro pode haver abismos bastantes, mas não na miséria da errância. Não sou como toda a gente que passa em gargalhadas. É tudo tão igual, parecido, que lembra um bloco. Pensamentos iguais, palavras iguais, movimentos iguais. É tudo tão tanto faz, que todos assemelham-se a porcos.

Pensamentos tanto faz, palavras tanto faz, movimentos tanto faz. Diante de tantas regras, não passamos de seres domesticados pela sociedade. Quase animais de coleira guiados pelo intangível. Se transgrido as normas, o dever ser, o meu conviva também. Minha lascívia não supera a de ninguém. Somos todos filhos da culpa ou redimidos. As diferenças existentes são que meu ar não é solene, meu garbo não é nobre. A minha coisa é toda diferente das outras, pois enquanto planejam, eu angustio; enquanto negam o abismo, eu me abrigo nele com calor; enquanto só cuidam da aparência, eu sou verminose nesse meio hostil.

"... Preste atenção querida,
embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco a tua vida
e em pouco tempo não serás mais o que és..."


Ontem acordei com o desejo de morrer. Nada latejava, a não ser a alma. Dela emanava um choro feliz insano, assim meio confuso. Chorava com tanta força que as lágrimas fartas escoavam em cócegas no inteiro rosto acneico. Feito isso, logo um sorriso involuntário aparecia. E mais um dia começava. Desencorajado, por demais longo. As miudezas minhas podem fazer desconfiar. Podem até alardiar saber, mas as fomes do meu corpo e do meu eu só eu bem conheço. Podem mais uma vez duvidar, desconfiar do que sinto, mas música mais bonita que aquela ainda não ouvi. Agora ela até parece um espetáculo de fogos:

"... Ouça-me bem amor,
preste atenção, o mundo é um moinho.
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos.
Vai reduzir as ilusões a pó".


Olho como quem toca. Toco como quem abre. Farejo como quem descobre, mas de nada adianta. Todos estão embriagados de si, ensimesmados. Em mim correm larvas de efusivo descontrole. O que poderia ter quisto para mim, não quis. O que poderia ter feito, também não fiz. Até o colorido dos meus penduricalhos já perdeu o furta-cor. A vida vadia arrastou comigo todas as náuseas. Os vômitos diuturnos, que até fazem bem, limpam o estômago. Neles, regurgito todas as amarguras da lua acesa, da vida, dos homens, de mim. Ao fim da noite, é como se explodisse nos espaços do meu corpo o tédio comprimido dentro daqueles ternos caros. Meus fluídos todos já curaram mais que elixir.

" ...Preste atenção, querida
De cada amor tu levarás só o cinismo..."


Sempre achei que os homens fossem feitos de nove partes de vaidade e uma parte de alguma outra coisa. Quando comecei na vida, tive a certeza disso. São vaidosos e alardiosos. Não acredito em alardes. Pessoas felizes não têm gritos. A quem for descuidado: cuidado. A solidão que por aí verseja não é menor que a minha. As mágoas nossas não acordam mais a um ou a outro.

"...Quando notares, estás à beira do abismo.
Abismo que cavastes com teus pés".


O meu atrevimento é verdade. A minha tristeza é mero revide. Ambas, estratégias de comércio. Sem escândalos ou exclamações. O dinheiro pode comprar apartamentos, antiguidades ou uma mulher. Tenho o olhar morto, a boca encarnada e o corpo precário, por demais usado. Alguns fingem que não me vêem, outros tratam-me como se tivesse cometido um latrocínio ou o pior dos desvios morais. Ao cabo de tudo, não há que se consternar, não há solução entre ninguém. Anoiteço meu fim como a cobra que morre ao ser atingida pela própria peçonha. Eis a vida vadia. Cartola cantou sem saber.

Do blogueiro: Texto cortante, certeiro. Admiro contos bem feitos. Talvez seja minha falta de talento para tal. Desconhecia os escritos de Denise. Fui "abordado" via email com a sugestão de publicação em jornal. Infelizmente, os espaços literários nos nossos impressos é insignificante, ou nulo. Prometi ler, opinar e publicar neste espaço. Moacy Cirne, Tácito e Jairo Lima já conhecem o trabalho de Denise. Fiquei surpreendido com a madureza, a concisão textual. Em terra de poetas e aventureiros da literatura, é um alento ler contos assim.

Um comentário:

  1. gostei bastante!!!! tbem sou uma denise araujo

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